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sábado, 4 de julho de 2026

ETERNIDADE

 

Me sentirei só
quando a morte meus olhos cegar
e entregue meu corpo aos vermes
minha alma pelo infinito
infinita 
mente 
vagar.


Despido de vaidades
sem sonhos
liberto dos desejos
um dia retornarei.


Quem fui?
Quem serei?


Então, ouvirei: És a luz do mundo, peregrino, vagando à sombra eterna de Deus.

LIC

segunda-feira, 14 de abril de 2025

HARUMI

A cena é bem simples. Uma senhora idosa, sentada num banquinho, quase tão baixo quanto ela, ao lado da portaria diante do portão de garagem.

Às terças, quintas e aos sábados, quem mora no edifício Veredas a encontra à espera.

Hoje, depois da minha caminhada, eu a vi assim que me aproximei da calçada. Dessa vez, ela não apenas inclinou o tronco e a cabeça em minha direção, sua forma de cumprimentar todos que passam por ela. Sorrindo, me deu uma bala e segurou minha mão por um instante.

Harumi fala um nada no meu idioma e pouco entende, o que impede nossa comunicação com muitas palavras. Agradeci também sorrindo.

Tudo que sei a seu respeito quem me contou foi o porteiro da manhã. “Dona Harumi mora com a filha no 8º andar. Ela tem 99 anos. Fica sentada ali esperando o ônibus da igreja com uma Bíblia descansando no colo. Não falta. Ela anda devagarinho, se apoia na bengala. Pra não se atrasar, chega uma hora antes. De pouco em pouco, ela me chama para saber que horas são.”

São oito e vinte. O ônibus vai passar daqui dez minutos. Sem nada de urgente pra fazer naquela manhã, fiquei por ali. “Esperando ônibus? Vai igreja?” Economizei palavras pra ela me entender.

“Sim, esperando. Ônibus chega logo. Vai igreja cantar, reza, almoça e depois volta casa”, ela respondeu.

Não deu pra mais nada. Além de tudo, ela usa aparelho para surdez.

Harumi foi pra igreja. Eu fui pra casa.

Tomei banho e, enquanto preparava meu desjejum, li as mensagens que chegam logo cedo via WhatsApp, geralmente tão óbvias e triviais que aborto principalmente as de autoajuda e mesmo algumas beatas. Não dá para esperar que o dia seja leve, repleto de sorrisos neste efêmero existir. Isso é uma inadequação conjuntural. De imediato, me lembro do Marco Aurélio (o imperador), um homem sensato. Ele tinha os pés no chão quando escreveu “Previne a ti mesmo ao amanhecer: ‘vou encontrar um intrometido, um mal-agradecido, um insolente, um astucioso, um invejoso, um avaro’”. (Meditações, Livro II, 1.)

Mas, naquela manhã, uma dessas mensagens, mesmo sem revelar algo profundo, fez que dona Harumi voltasse à minha tela mental acompanhada de uma questão que filósofos e teólogos discutiram e discutem ainda hoje. “Será que Deus precisa das nossas orações ou nós oramos por uma necessidade humana?”

O rabino Michel Schlesinger diz que os dois precisam. Pois Deus só existe enquanto houver quem espie para cima e busque por ele e nós só existimos enquanto ele olhar para baixo e nos der força para seguir em frente.

Homens e mulheres do povo da Bíblia acreditaram nisso. Diante de infortúnios, nem o grande sábio Salomão nem Sansão com sua força sobre-humana, menos ainda o paciente Jó, dispensaram a existência de Deus. Com os joelhos no chão, foram mais longe do que seus pés os poderiam levar.

Mesmo que sejam personagens de narrativas com conteúdo mítico, eles são porta-vozes da frágil e limitada condição humana diante do panorama geral da vida. Foram e somos vulneráveis às mínimas turbulências. É preciso ter coragem para viver sem Deus.

Estou escrevendo em meu computador diante de uma ampla janela. O pôr do sol se aproxima pintando de alaranjado a imensidão do céu. Num impulso, olho para cima.

E o que vejo? Dona Harumi. Há bondade no seu olhar. Seus olhos dão a ideia de que a vida é simples. Tem gente assim, que se apoia no transcendental para levantar a alma ligada à terra.

LIC

 

terça-feira, 10 de setembro de 2024

SAN GIOVANNI BATTISTA

Donatella acordou com sinos tocando tão próximos dos seus ouvidos que pensou estar dormindo na sacristia.

Ela estava hospedada numa antiga casa construída ao lado da igreja de San Giovanni Battista, nel comune di San Giovanni d'Asso.

Vinha de lá o badalar que a acordou às seis horas daquela manhã.

Ainda sonolenta, foi procurar um café para despertar. Na cozinha, encontrou il suo ospitante.

“Buongiorno dal Signore, cara Donatella. Andiamo a messa?” Assim o proprietário da casa, Giovanni Pozzone, a cumprimentou. 

Pega de surpresa, Donatella respondeu que sim.

"Ti aspetterò. La messa inizia alle 7.”

No seu quarto, surpresa pelo convite, mais ainda por ter aceitado, Donatella tentou recordar quando tinha sido a última vez que fora a uma missa.

"Foi na missa de Sétimo Dia da minha mãe. Quanto tempo faz isso?” Não lembrava.

Encontrou Giovanni à sua espera sentado no mesmo lugar. Sem pressa. A igreja ficava a dez passos dali, quase como uma extensão da casa.

La pieve di San Giovanni Battista, longe do vilarejo, está voltada para a praça principal da cidade. É uma igreja em terracota, com uma torre de dois sinos, pouco maior do que a estrutura da própria igreja. Simples, austera, com uma única nave, tem obras valiosas preservadas no seu interior. 

Giovanni e Donatella sentaram nos primeiros bancos. Ele, solene, circunspecto. Ela, pouco à vontade, constrangida. Não lembrava de nada mais do que aprendera na catequese.

Participou da celebração atenta aos movimentos de Giovanni, pelo menos para não sentar quando deveria ficar de joelhos. Só rezou na hora do Pai Nosso. “Dessa oração ainda me lembro”.

Acabada a missa, por ainda ser cedo para qualquer distração, sentaram-se no chão de cascalho do jardim da casa, à sombra de uma árvore.  

Uma frase do Evangelho tocara Donatella profundamente. Com certa timidez – eles se conheciam há pouco tempo – ela lhe perguntou o que pensava a respeito.

“Nem sempre encontro entendimento. Somos limitados para as coisas de Deus, Donatella. Sei apenas que tudo fica mais fácil com ele. Eu tenho uma vida abençoada, mesmo assim, quando sinto a escuridão ao apagar a luz do meu quarto à noite, eu me pergunto se isso é tudo. Ele, na sua infinita sabedoria, diz que é o bastante por agora.”

Caterina, sua moglie, li chiamò per la colazione. 

“Nem só de pão viverá o homem”, diz a Bíblia, mas estamos com fome, não é mesmo, Donatella? 

Entraram.

Os sinos da igreja começaram a badalar novamente, anunciando a missa das 9. 

LIC


sábado, 7 de setembro de 2024

É ASSIM MESMO.

 

Eu guardo a lembrança vívida daquele momento caloroso e agradável.

Está congelado no tempo, tendo se desdobrado silenciosamente em inúmeros episódios ao longo da nossa convivência.

Era o dia do meu aniversário. Eu completava 15 anos.

Antes dos convidados chegarem, meu pai me chamou em seu escritório.

"Senta aqui, Nina."

Estranhei o convite. Meu pai educava falando pouco, atento ao necessário, evitando o supérfluo.

Para mamãe, que gostava de discursar e argumentar, repetia um trecho da carta de Tiago: "Seja o teu sim, sim, e o teu não, não".

Não foi uma longa conversa porque logo a campanhia tocou. Eram os convidados chegando.

Na ânsia de recebê-los, mal escutei a frase que meu pai disse ao me abraçar carinhosamente na despedida. "Nina, a vida é uma permissão de Deus".

Sem ter consciência de seu  significado profundo, por todos esses anos, vivi sem levá-la a sério. Estava lá, no mais escondido de mim porém latente.

Aos poucos, comecei a tomar as rédeas da minha vida, me apropriando do mundo e das pessoas que o foram povoando, agindo de acordo com minhas necessidades e desejos.

Sempre algo fora de mim fazia um movimento para me trazer de volta àquelas palavras.

Tracei a linha das minhas vivências, o campo dos meus afetos, sentimentos e emoções, sem dar conta da sua essência.

Estabeleci planos e metas, colocando pedra sobre pedra no edifício cujo único arquiteto acreditava ser eu mesma.

Ledo engano.

Ao saber que me restam poucos meses de vida, eu a compreendo inteiramente.

Pouco sei de Deus, menos ainda como ele atuou em mim.

Mas não chegamos ou partimos por livre e espontânea vontade nem quando queremos. "A vida é uma permissão de Deus."

Espero ter feito por merecê-la.

LIC

segunda-feira, 29 de julho de 2024

UM OÁSIS OU UMA PADARIA?

São 5h da manhã.

Desperto sempre nesse horário, na primavera, no verão, no outono e no inverno, domingo a domingo.

Após cumprir o ritual de toda manhã, e apesar do frio, saí pra comprar pão.

Era um sábado de um feriado prolongado.

Fui a pé.

Ainda estava escuro. Ao abrir a porta de casa, uma lufada de vento e 10 °C de sensação térmica me surpreenderam.

Não cruzei com viva alma nos 300 metros que caminhei até meu destino.

Depois dos 100 metros finais, dobrei a esquina e tive a sensação que, penso eu, os beduínos têm ao cruzar o deserto e avistar um oásis.

Foi um maravilhamento.

Parei por segundos para admirar aquele "oásis" reluzente que se destacava no cenário escuro da manhã.

Aquela imagem não sai da minha memória.

Caminhei mais lentamente pra que a proximidade não desfizesse o encantamento.

A realidade pode destruir coisas belas.

Lembrei da Adélia Prado. De vez em quando, Deus me dá poesia. Vejo uma padaria e enxergo um oásis.

O dia começou a clarear. Senti aromas no ar, ouvi sons, percebi movimentos. O sino da paróquia ressoou seis vezes. Despertei.

Voltei pra casa com seis pãezinhos e os pés no chão. Meu mundo retomara sua ordem natural.

LIC

P.S.: Adélia Prado (1935-   ) "De vez em quando, Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo."

sábado, 20 de julho de 2024

ELE DESCANSA, MAS NÃO DORME

Um casamento religioso depois de 15 anos do casamento civil e dois filhos.

Foi um amigo de longa data que me convidou pra cerimônia.

Aceitei o convite, participei da renovação do sim da Juliana e do Raphael.

Mas acho que meu amigo estava mais feliz que o casal, pois, além de tio da noiva, era o pároco da igreja.

"Eles decidiram oficializar sua união perante Deus. É disso que se trata", ele acrescentou.

Sim, a Deus se deve obediência e reverência, eu aprendera na escola dominical.

Meus pensamentos, entre voltas, reviravoltas e saltos acrobáticos, estacionou no passado com (ou sem?) Deus.

Na casa dos meus pais, religião se traduzia em rezar o Pai Nosso antes de dormir e no "A bênção, vó." quando ela vinha nos visitar.

Isso bastava pra vivermos com alegria e paz, em casa ou lá fora.

As aulas de religião nos meus anos primários, que eu assistia amedrontado, mudaram esse cenário no meu interior.

Deus tomou existência num ser não humano, composto de moléculas bisbilhoteiras e vingativas, sempre à espreita pra me castigar.

Nunca mais comi um pedaço de bolo escondido da minha mãe que não me sentisse "vigiado" ou à espera da punição.

Desde então, trilhei um caminho tal qual o dos judeus no deserto em direção à Terra Prometida, com dissidências, decepções, desvios, desafios, sempre sob sua vigilância.

Mas que deixou de me amedrontar quando, como Guimarães Rosa, passei a ter certeza que "tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo".

Vivo apostando nisso quando me pego "comendo bolo escondido da minha mãe" ou quando me surpreendo parado à margem da estrada.

Ele descansa, mas não dorme.

LIC



terça-feira, 2 de julho de 2024

O HOMEM PROPÕE, MAS DEUS DISPÕE


Logo cedo, virei a página do meu calendário de mesa e estava lá: Segundo Semestre.

Na página seguinte, o dia: 1° de julho, segunda-feira.

Eu sei que o primeiro dia da semana é domingo.

Mas é na segunda-feira que o dia a dia recomeça e, nesta em particular, por uma coincidência cronológica, começou a segunda metade do ano.

'Bateu' uma culpa, mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa quando lembrei de algumas das minhas metas de fim de ano - não cumpridas - cujo prazo de validade venceram ontem, 30 de junho.

E agora?

Foi então que, se juntando a esse início de mês culposo, minha máquina de lavar roupa parou de funcionar no enxague, cheinha de lençóis, fronhas e toalhas da troca da semana.

E quem é que sobrevive sem máquina de lavar roupa?! Eu não.

Nem as mensagens via WhatsApp encorajadoras que recebi logo cedo: "Bem-vindo, julho, que o melhor aconteça!", "Enxergue o novo mês com esperança.", "Desafie-se neste novo mês!", "Permita-se viver intensamente em julho." etc. etc. etc., me encorajaram.

"Bom dia, 'seu' Takeda. Minha máquina de lavar não tá enxaguando, o senhor pode vir consertar hoje?", telefonei pro técnico.

Horror dos horrores. 'Seu' Takeda só tinha horário pra quinta-feira!

Sobrou pra Zeni, a diarista, enxaguar e torcer aquela roupaiada.

Foi então que tive um estalo desculposo. "Já sei como colocar a culpa, mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa 'pra fora de casa'."

A Zeni vive dizendo, quando quero descartar um produto com prazo de validade vencido: "Não jogue não, dona Yara. Eles põem essa data pra vender mais. Pode esperar mais uns 10 dias que ainda vai tá bom".

Pois bem. Vou fazer o mesmo com minhas metas não cumpridas. Estendo o prazo de validade por 180 dias, até o próximo Réveillon.

Afinal de contas, por mais que tracemos metas, façamos planos, a vida vai acontecendo à nossa revelia e pode ser virada pelo avesso a qualquer momento. 

A gente propõe, mas Deus dispõe.

O dólar sobe, alguém querido se vai, as ações despencam, começa uma guerra, o rio transborda, se perde o emprego, surge um vírus estranho, a máquina de lavar roupa pára de funcionar.

LIC

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Se eu quiser falar com Deus...

OFICINAS DE ORAÇÃO E VIDA
   As  Oficinas de Oração e Vida são encontros semanais onde aprendemos, por meio de métodos bastante simples, a nos aprofundar na prática da oração e a estabelecer uma relação pessoal com Deus. 
   Em 1984, seu idealizador e fundador, frei Ignacio Larrañaga, iniciou sua difusão pelo mundo e, hoje, 44 países oferecem as Oficinas de Oração e Vida a milhares de pessoas, nos cinco continentes.
Venha aprender a Orar para aprender a Viver!
Início (vespertino e noturno): agosto de 2016, às segundas-feiras, das 14h30 às 16h30 ou das 20h às 22h.
Não precisa fazer inscrição.
Local: Paróquia Nossa Senhora do Carmo da Aclimação, rua Braz Cubas nº 163, Aclimação, São Paulo (SP). Salão paroquial.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Se eu quiser falar com Deus...

OFICINAS DE ORAÇÃO E VIDA

   As  Oficinas de Oração e Vida são encontros semanais onde aprendemos, por meio de métodos bastante simples, a nos aprofundar na prática da oração e a estabelecer uma relação pessoal com Deus. 
   Em 1984, seu idealizador e fundador, frei Ignacio Larrañaga, iniciou sua difusão pelo mundo e, hoje, 44 países oferecem as Oficinas de Oração e Vida a milhares de pessoas, nos cinco continentes.
Venha aprender a Orar para aprender a Viver!
Início (vespertino e noturno): dia 8 de agosto de 2016, segunda-feira, às 14h30 e às 20h.
Não precisa fazer inscrição.
Local: Paróquia Nossa Senhora do Carmo da Aclimação, rua Braz Cubas nº 163, Aclimação, São Paulo (SP). Salão paroquial.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Poder, Amor, Revolução


Não se descobriu outra “ciência” nem outra revolução para a transformação do ser humano a não ser aquela revelação trazida por Jesus: renunciar aos sonhos de onipotência, reconhecer a incapacidade da salvação pelos meios humanos, tomar consciência da nossa miséria e fragilidade, nos entregarmos confiada e incondicionalmente nas poderosas mãos de Deus e permitir-lhe, dia após dia, abandonados com absoluta “passividade” nas suas mãos, sermos transformados desde as raízes. Só Deus é o Poder, o Amor e a Revolução. - Ignacio Larrañaga, Mostra-me o Teu Rosto 2011, p. 473.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Gratuidade divina

   Entre nós, funcionam as leis da proporcionalidade: dou-lhe tanto, você me dá tanto. Por tantas horas de trabalho, você me paga tal salário. A tal causa, tal efeito. A tanta ação, tanta reação. Leis de proporcionalidade, cálculos de probabilidade, constantes psicológicas.
   Na vida com Deus não acontece nada disso. Ninguém pode questioná-Lo perguntando:
- Senhor, como a este que trabalhou duas horas estás pagando igual àquele que completou dez horas?
   Deus responderá:
- O que dei a este pelas duas horas de trabalho não foi um salário, foi um presente. O que dei àquele que trabalhou dez horas não foi um salário, foi um presente. E do que é meu, posso fazer o que considero conveniente. É bom que vocês saibam que neste meu Reino nada se paga porque nada se ganha. Neste meu Reino funciona um só verbo: o verbo dar. Tudo é dom, tudo é dádiva. E na órbita de vocês, um só verbo: o verbo receber. Tudo é presente, tudo é Graça. - Ignacio Larrañaga, Oficinas de Oração e Vida (TOV), 1984.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Quem é Deus?

   Deus não é um conjunto de palavras alinhavadas com uma lógica interna, não é uma abstração mental ou uma teoria. Deus é uma pessoa e a uma pessoa se conhece relacionando-se com ela; e só este relacionamento pessoal nos dá aquele conhecimento experimental "que supera todo conhecimento".
   Se não nos lançamos de cabeça no mar de Deus, nunca saberemos quem é Deus. - Ignacio Larrañaga, Manual do Guia 2005, p. 3.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Apenas por Ele

   Com o passar das horas, foi se desenrolando diante dos olhos de minha mente um filme. Ele estava trançado de convicções e claridades, com o seguinte matiz: no final, o que é decisivo não é a ação, mas a intenção. Se a intenção é reta, a ação é pura. Se a intenção estiver enfocada no centro do “eu”, automaticamente a ação fica corrompida, e fica corrompida na medida em que for realizada em proveito próprio, vaidade e satisfação.
   [...]
   A questão é, pois, a pureza de intenção: não o que se faz e, sim, a intenção com que se faz. O mistério cumpre-se, pois, nas últimas e mais recônditas latitudes das motivações, na própria fronteira do mundo inconsciente. Assim, então, a essência da questão é uma: que Deus seja a motivação suprema e única de tudo quanto eu faça, diga, escreva... - Ignacio Larrañaga, A Rosa e o Fogo 2012, p. 22.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

a Fonte I

Cantar del alma que se huelga de conoscer a Dios por fe
Cantar da alma que goza por conhecer a Deus pela fé

¡Qué bien sé yo la fonte que mana y corre, 
 aunque es de noche!
Como eu bem sei a fonte que emana e corre,
embora seja noite!

                  I
Aquella eterna fonte está ascondida. 
¡Que bien sé yo do tiene su manida 
aunque es de noche!
Aquela eterna fonte está escondida,
mas eu bem sei onde tem sua guarida,
embora seja noite!

                  II
Su origen no lo sé pues no le tiene 
mas sé que todo origen della viene 
aunque es de noche.
Sua origem não a sei, pois não a tem,
mas sei que toda a origem dela vem,
embora seja noite!

                  III
Sé que no puede ser cosa tan bella, 
y que cielos y tierra beben della 
aunque es de noche.
Sei que não pode haver coisa tão bela,
e que os céus e a terra bebem dela,
embora seja noite!

                  IV
Bien sé que suelo en ella no se halla 
y que ninguno puede vadealla 
aunque es de noche.
Eu sei que nela o fundo não se pode achar,
e que ninguém pode nela a vau passar,
embora seja noite!

                  V
Su claridad nunca es escurecida 
y sé que toda luz de ella es venida 
aunque es de noche.
Sua claridade nunca é obscurecida,
e sei que toda luz dela é nascida,
embora seja noite!

                  VI
Sée ser tan caudalosos sus corrientes, 
que infiernos cielos riegan y a las gentes 
aunque es de noche.
Sei que tão caudalosas são suas correntes,
que infernos, céus regam, e as gentes,
embora seja noite!

                  VII
El corriente que nace desta fuente 
bien sé que es tan capaz y omnipotente 
aunque es de noche.
A corrente que nasce desta fonte
bem sei que é tão capaz e onipotente,
embora seja noite!

                  VIII
El corriente que de estas dos procede 
sé que ninguna de ellas le precede 
aunque es de noche.
A corrente que destas duas procede,
sei que nenhuma delas a precede,
embora seja noite!

                  IX
Aquesta eterna fonte está escondida 
en este vivo pan por darnos vida 
aunque es de noche.
Aquela eterna fonte está escondida,
neste pão vivo para dar-nos vida,
embora seja noite!

                  X
Aquí se está llamando a las criaturas 
y de esta agua se hartan, aunque a escuras 
porque es de noche.
De lá está chamando as criaturas,
que nela se saciam às escuras,
porque é de noite.

                  XI
Aquesta viva fuente que deseo 
en este pan de vida yo la veo 
aunque es de noche.
Aquela viva fonte que desejo,
neste pão de vida já a vejo,
embora seja noite!
                            San Juan de la Cruz (ca. 1577-1578)

sábado, 25 de outubro de 2014

Um novo Deus

   Quero anunciar um Deus em cuja memória não se registram falhas dos povos e em cujo dicionário não se encontra a palavra castigo. - Ignacio Larrañaga, Carta Circular nº 26 dez. 2010, p. 2.


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

À procura

   O ateu, na busca de evidências que provem a inexistência de Deus, espera desesperadamente encontrá-Lo. - LIC, 1993.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Em busca do sentido perdido

   Vivemos uma época de crise que se distingue pela sensação de vazio existencial ou perda do sentido da vida. Por isso, estamos necessitados de transcender-nos continuamente, de dar passos para a frente.
   Transcender-se é ir além; superar de alguma maneira as próprias fronteiras e limites pessoais. O ser humano não é uma entidade acabada; é um devir, um estar fazendo-se na contingência. A questão é abrir-se cada vez mais à dimensão da profundidade, como dizia Goethe: “A divindade atua no vivo, no que se torna e muda, não no consolidado e inerte”.

Normalmente, as Igrejas são as encarregadas de manter viva e crescente essa transcendência, mas elas se transformaram, como diz Balducci, em ideologias sacras, com uma linguagem em desuso que não nos diz nada. Isso explica o desencanto crescente e a tendência a desfazer a filiação a essas Igrejas.  
   Em contrapartida, surgem por toda parte seitas, ofertas e propostas de todas as espécies – sinal evidente de que infinitos finitos da sociedade consumista não podem saciar um poço infinito. Só um Infinito pode enchê-lo.
   Por isso, vai chegar – e já está chegando! – uma nova era de fome de Deus, uma busca ardente e profunda do Deus vivo e verdadeiro. - Ignacio Larrañaga, As Forças da Decadência 2005, pp. 30-31.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Um poema oriental



Pierre BONNARD

 | Amandier en fleurs | c. 1845

Eu disse à amendoeira:
- Irmã, fala-me de Deus.
E a amendoeira floresceu. - Ignacio Larrañaga, Mostra-me o Teu Rosto 2011, p. 265.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Sua presença

O critério mais seguro da presença divina é a paz. - Ignacio Larrañaga, Encontro 2010 p. 162.

domingo, 10 de agosto de 2014

O Pai

Os segredos mais íntimos
   Já viram alguma flor que, por ser perfumada, pede um aplauso, ou uma estrela que, por brilhar, reclame um prêmio, ou um pai que, por amar, pede reconhecimento? Amam sem esperar recompensa, porque Deus depositou no coração dos pais uma centelha de seu fogo. Pois bem, se vocês, com esse coração que não foi feito com bom fermento, mas de barro quebradiço, se vocês são capazes de comportar-se dessa maneira com seus filhos, não pensaram como há de ser o Pai? Se pensassem nisso, dormiriam seguros, despertariam felizes, e os lobos nunca rondariam sua casa. - Ignacio Larrañaga, O Pobre de Nazaré 2012, p. 128.