Essas duas senhoras já estavam na casa dos meus pais quando eu nasci.
Ignes, à esquerda na foto, aparece com a mesma idade que
tenho hoje. Nascida no Brasil e descendente de italianos, casou-se com um imigrante
de Pádua. Apesar de austero, Caetano não conseguiu abafar o espírito alegre da
esposa, que se schiattava de rir com a “Praça da Alegria”, um
programa humorístico de televisão dos anos sessenta. Depois da viuvez, vó Ínes
(como eu a chamava) foi morar na edícula do sobrado doado por ela como herança
para minha mãe. Era lá que meus irmãos e eu nos reuníamos à tarde, para ajudá-la
a costurar botões em cartelas – seu jeito de ajuntar uns trocados à
aposentadoria.
Ao seu lado está Giuseppa, vó Josefina, nascida em Perugia, que imigrou com
a família para as Américas. Seus pais e irmãs desembarcaram na Argentina; ela e
Fernando, imigrante de Nápoles e seu futuro marido, ficaram no Brasil. Estabeleceram-se no interior de São Paulo onde constituíram família e patrimônio.
A febre tifoide trouxe-lhe a viuvez e pobreza logo após o nascimento do sétimo
filho – meu pai, com quem ela foi morar depois do seu casamento com minha mãe. No
sobrado da rua dos Patriotas 697, dividíamos um quarto. Depois de lhe pedir a
bênção, entregava-me em segurança ao sono, embalada pela seriedade de sua oração:
“Deus que mande a santa e boa noite”.
Suas histórias entrelaçavam-se nas colchas de crochê que teciam
à tardinha, na modelagem à mão de cajuzinhos para as festas de aniversário, enquanto
assistiam telenovela à noitinha e nas preocupadas confidências sobre os filhos.
Convivemos até o fim de suas vidas e minha história entreteceu-se
com a delas em tão estreita simbiose que a morte não desfez. Mais de meio
século, eis-me aqui relembrando nosso passado.