Em um dia de abril, perto da celebração da Páscoa, ganhei
dois bombons Cherry Brandy da Kopenhagen.
Há muito tempo, gostava de chocolate, qualquer um – Dan-Top,
Dadinho, Sonho de Valsa, Bis, Diamante Negro, Serenata de Amor. Mas, aos 18
anos, comecei a trabalhar e pude satisfazer minha compulsão chocólatra apenas
com chocolates da Kopenhagen. Me tornei uma kopenviciada.
Experimentei de tudo – Nhá Benta, Lajotinha, Chumbinho,
Língua de Gato e o bombom Cherry Brandy que, dentre todas aquelas delícias,
tinha primazia inegociável. A falta de proporcionalidade entre o preço estratosférico
desse bombom e meu modesto salário fez com que ele se tornasse um objeto de
desejo, uma “miragem” no deserto da minha ansiedade chocolateana.
Essa fissura se tornou conhecida entre familiares e amigos.
Ficou fácil me presentear no meu aniversário, no Natal, Páscoa, Dia dos
Namorados, Dia das Mães, Dia da Sogra, com uma quantidade a depender da
condição financeira do presenteador. Desde que “nasceu” em 1953, paga-se caro por
esse prazer. Sua origem é artesanal. Feito e fechado à mão, o processo de
fabricação completo leva de 12 a 14 dias. A cereja é chilena, selecionada uma a
uma para garantir que seja livre de imperfeições, furos, manchas ou deformações.
Voltando ao início desta crônica, a ofertante entregou o
presente se justificando pela quantidade.
– Nossa, a Kopenhagen está
inacessível. Só deu para comprar dois!
Considerando o contexto econômico de quem me presenteou, os
dois bombons ganharam valor sentimental. Considerei que mereciam ser saboreados
em uma ocasião especial, a sós, serenamente, ao cair de uma tarde de vento outonal,
cenário condizente com o conforto do sabor intenso do licor e do conhaque no
recheio.
Mas o frio de verdade estava demorando a chegar.
– Prazer terreno não se adia. Comamos e bebamos que amanhã
morreremos.
Convencido por esse raciocínio incontroverso, decidi não esperar
por mais tempo as condições ideais. Desembrulhei o papel alumínio vermelho que
o envolve e abocanhei a base, a parte inferior, para evitar que a calda líquida
escorresse pelos lados.
Feito isso, o impacto foi imediato.
– Não pode ser, que sabor açucarado, doce demais!
O que antes me parecia em perfeito equilíbrio de doçura (do
chocolate), acidez (da fruta) e intensidade (do licor), senti desajustado em
tudo.
Insisti, comi ele todinho e o segundo também. A sensação de
desprazer foi a mesma, a experiência foi insípida, sem graça, sem deleite
gustativo.
– Mudei eu ou a Kopenhagen?
Pela primeira vez, me veio à cabeça a ideia clara de que
minha memória afetiva fora desativada. Seu efeito “madeleine de Proust” se
perdeu pela distância em tempo e espaço daquele primeiro Cherry Brandy que comi
aos 18 anos.
Ainda tenho “momentos medeleines” que causam uma inversão do
tempo entre o passado e o presente consciente. Quando, ao sentir o aroma do
café sou transportada para a cozinha da minha mãe naquelas manhãs de férias na
praia. Logo cedinho, ela já estava lá, coando o café. Tomávamos uma xícara sentadas
frente a frente, sem palavras. Papai largava o jornal que já lera inteirinho e
se juntava a nós. O dia começava.
Mas, em “busca do tempo perdido”, o Cherry Brandy se tornou
irrelevante, perdeu a validade.
Eu mudei.
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