sexta-feira, 6 de novembro de 2026

CONTANDO OUTRA VEZ

 

Era uma vez... uma avó e uma baratinha. As duas se encontraram numa certa cozinha na madrugada de um certo dia.

A avó foi beber água e a baratinha foi procurar água. As duas precisam de água para viver. Não se conheciam, mas a antipatia foi imediata.

Ainda sonolenta, com os olhos semiabertos, a avó esticou o braço e abriu por engano a gaveta dos talheres.

No silêncio daquele quase amanhecer, se ouviu o farfalhar das patinhas da baratinha e o grito estridente da avó: “Que horror, uma barata!” 

A baratinha fugiu pra dentro da gaveta e a avó fugiu pra longe da gaveta. A avó não conseguiu mais dormir só pensando como expulsar a baratinha da sua casa. E a baratinha entrou numa fresta minúscula do armário onde morava e lá ficou parada, imóvel, para repor as energias.

Amanheceu... A avó, que não sabia nada sobre baratinhas, perguntou em livros e telas pra quem sabia tudo – inclusive como eliminá-las! Mas, ao descobrir que até elas trabalham para o bem do nosso Planeta, desistiu de acabar com a baratinha. Também porque ninguém conseguiu sumir com elas desde que foram criadas há mais de 400 milhões de anos.

Então, cheia de sabedoria, a avó resolveu fazê-la se mudar. Colocou um ramo de folhas frescas de louro na porta de entrada da casa da baratinha – aquela fresta minúscula do armário –, tampando sua saída. A baratinha acordou com o cheiro forte, torceu as anteninhas e decidiu que ali não era mais o seu lugar. 

A avó e a baratinha nunca mais se encontraram e continuam não se gostando.

LIC


quinta-feira, 5 de novembro de 2026

ENTRE POUSO E DECOLAGEM

Aeroporto de Congonhas (1965), German Lorca

O nevoeiro daquela manhã de outono encobria o horizonte. Do terraço panorâmico de Congonhas, Cleonice não viu Pedro embarcar no avião que o levaria para o Rio de Janeiro. O contorno do cenário lá fora perdera a nitidez, esmaecido em tons cinza e branco. Contudo, o forte e contínuo ronco dos motores a pistão lhe deram a certeza de que o avião partira.

Momentos antes, ao se despedirem no saguão central em frente às escadas rolantes de acesso ao embarque, Pedro lhe fizera um convite.

"Suba comigo, vamos tomar um café no mezanino. Falta uma hora para a decolagem."

“Querido, já estou atrasada, meu primeiro atendimento é daqui a meia hora”, Cleonice respondeu, despedindo-se na pressa com um beijo frívolo e frio.

Já no topo da escada rolante, Pedro voltou-se e ainda pode ver Cleonice de costas saindo pelas portas de vidro, direto para a calçada em direção ao ponto de táxi.

Prestes a passar pela inspeção de segurança, um sentimento difuso, uma impressão ruim de que algo não estava como deveria estar fez com que desse a volta. “O Congresso começa amanhã. Pego um voo noturno”, decidiu. No guichê da Varig, remarcou a viagem de ida, garantiu o trecho de retorno e voltou para casa.

A maçaneta da porta lhe ofereceu uma frialdade incomum. Ao entrar no hall, o perfume de Cleonice denso e nítido materializou sua presença recente.

À espera da esposa que comumente voltava para o almoço, se ocupou em melhor ajustar a palestra que apresentaria.

Pedro esperou Cleonice até o penúltimo voo da noite. Por fim, apagou todas as luzes da casa e foi para o aeroporto, carregando dolorosamente a verdade que há meses tentava negar.

Na porta do avião, a comissária lhe deu as boas-vindas e lhe desejou uma excelente viagem. O que seria improvável.

LIC