Perplexo com o que acontecera, Igor se trancou na biblioteca.
Sentado na poltrona de vime que a esposa lhe dera ao completar 60 anos, apoiado
no braço direito do móvel, com a cabeça sustentada pela mão, cenho franzido,
seu olhar vagou por aquele dia.
“É para seu canto de leitura, querido. Encontrei essa peça seminova
no antiquário do Pierre Nielsen, um colega da faculdade. Ele trocou o
estetoscópio pela beleza do que resiste ao tempo.”
Como uma sentinela controlando o acesso de entrada, Igor encostou
a cadeira próxima à porta. Estar só era uma necessidade premente para tentar compreender
o que vinha acontecendo com Virginia.
Há algum tempo, durante o jantar – única refeição em família
–, Igor começara a notar certo distanciamento de Virginia, desatenta a ele próprio
e à tagarelice de Lorena, a filha de 7 anos, respondendo-lhes com irritação e
impaciência.
Quem veria naquela mulher aérea a aluna dedicada que
assistia fascinada às suas aulas de semiologia?
Naquela noite, percebera também tremor nas suas mãos a ponto
de, ao servir a canja, derrubar o caldo quente no colo da menina que, de um
salto, se pôs a gritar.
Despertando abruptamente, Virginia acudiu a filha entre
lágrimas e beijos. Ergueu Lorena no colo e, em direção à escada para os quartos,
recusou a ajuda de Igor. “Deixe que eu cuido de Lorena sozinha” – respondera rispidamente.
O badalar do relógio lembrou Igor que a noite avançara. Chegara
a um possível diagnóstico. “Virginia deve estar no início de um Parkinson precoce.”
O som do choro de Virginia na cozinha alcançou Igor assim
que abriu a porta. Respeitando sua tristeza e a provável doença, resolveu deixá-la
só e foi dormir.
Virginia escrevia a carta que Igor encontraria de manhã sobre
o travesseiro da esposa, explicando-lhe porque fora embora com Pierre.
LIC