quarta-feira, 24 de junho de 2026

O PORTÃO DE FERRO

 

Desde a manhã bem cedo daquele sábado 25 de abril, o tempo e a temperatura favoreciam meu desejo de isolamento e de contato com a Natureza.

Eu estava tão exausto do trabalho, insatisfeito comigo mesmo ao lembrar como era minha rotina há mais de cinco anos, que aceitei o convite de uma amiga para passar o dia distante do mundo urbano.

O lugar escolhido era um refúgio de silêncio, "onde tudo era bom, onde tudo funcionava em perfeita paz e equilíbrio”, como no princípio. Formigas carregando seus fardos, pássaros em voos frenéticos e agitados, minhocas se alimentando, escavando e excretando, aranhas construindo armadilhas para capturar presas, impulsionados pelo instinto cego de sobrevivência.

Sentada em um dos bancos de madeira espalhados pelo pátio daquela casa de retiro, eu meditava o requinte do cosmos diante de um jatobá centenário. Eram 11 da manhã, lembro perfeitamente porque o sino da capela soou, quando resolvi me afastar o suficiente para ninguém me perturbar. 

De maneira inesperada, um vento tempestuoso cortou o ar em turbilhão, fazendo voar em abundância as folhas envelhecidas daquela árvore, que cobrearam o chão de cimento batido.

A violência dessa manifestação da Natureza me despertou um sentimento profundo, como se houvesse uma intervenção divina por trás desse acontecimento. Foi quando me pareceu ouvir uma voz dizendo “eis que faço novas todas a coisas”.

Olhei ao redor procurando quem seria. Ninguém à direita, ninguém à esquerda nem à frente nem atrás. Àquela hora todos tinham se recolhido para o almoço. Eu me demorara guardando meus pertences.

Mas, como Elias no monte Horebe, aguardei mais instruções. Uns minutos imóvel à espera aumentou meu foco no momento presente e meu horizonte visual.

Lá adiante, estacado na calçada em frente do portão de ferro fundido, estava um homem com a pele enegrecida pela sujidade do mundo, sob uma manta de pobre, daquelas que cobrem a cabeça e descobrem os pés, segurando uma sacola vazia de supermercado.

Seus olhos cinzentos, que estavam voltados para mim de forma fixa, me incomodaram e me pus prevenida. Foi quando algo oportuno alterou minha visão e despertou meu estômago: o sino da capela marcou o meio-dia.

“Ele deve estar com fome e eu também.”

Desviei meu olhar, lhe dei as costas e fui para o refeitório. “Deve ser um pedinte da casa; logo alguém virá lhe trazer um prato de comida.”

Não avisei aos funcionários sobre sua presença nem comentei com ninguém, ainda mais porque aquele era um retiro de silêncio onde até sussurros eram proibidos. Então me sentei sozinha e escolhi uma mesa defronte a uma janela. Caprichei na hora de montar meu prato e na porção da sobremesa.

Ao me sentar, através daquela janela, eu o vi, aquela presença estranha, ainda do lado de fora do portão de ferro.

Um tal sentimento de aborrecimento tomou conta de mim que amargou o sabor da primeira garfada. Eu continuava do lado de dentro do portão de ferro.

Seria isso mais uma intromissão divina?

Devolvi a sobremesa.

LIC

sábado, 2 de maio de 2026

ANITA

 

Às 8 da manhã, o ônibus 508L-10 parou na praça General Polidoro. Naquela terça-feira, como desde alguns meses, lá estava eu esperando por ele. Era o mesmo motorista, o mesmo cobrador, os mesmos passageiros já entrados e, talvez, seriam os mesmos que entrariam.

Bem, nem todos.

O banco de dois lugares, atrás do condutor e antes da catraca, costuma estar vazio. Prefiro ocupar o assento do corredor para me dar a liberdade de sair.

No ponto seguinte, embarcou uma senhora que pediu licença para sentar no meu banco. Era de estatura alta, magra, o rosto tinha cor amarelada e doentia, sem viço, assim como o cabelo tingido com a raiz desbotada. Sua roupa cheirava a naftalina.

Juntei as pernas, joelho com joelho, girei-as para a direita, me preparando para dar espaço para ela ocupar o assento na janela.

Sem que eu perguntasse, falou que desceria na Barão de Limeira.

"A senhora vai mais distante do que eu", disse, aliviando minha consciência por não ceder o assento do corredor, mesmo vendo seu esforço em se equilibrar quando o motorista acelerou para escapar do sinal vermelho.

Foi a deixa para ela começar um monólogo. Um solilóquio, na verdade, porque me ter ao seu lado parecia irrelevante. Ela dirigia-se a si mesma, ensimesmadaexpondo em voz alta sua existência e idiossincrasias.

"Como esse ônibus demora. Fui fazer exame de sangue aqui por perto, na clínica do meu convênio, cada vez pior. Cobram caro, a mensalidade é um absurdo e diminuíram os lugares de atendimento."

O ônibus descia a Bueno de Andrade.

"Que rua suja! É porque lá adiante só tem cortiço", comentou, apontando um dedo acusador para os vários sobrados de fachadas deformadas que existem por ali. "Só assim mesmo pra conseguir morar perto do centro. Minha diarista mora em Itaquera, não paga aluguel, tem casa própria, mas levanta 4 da manhã pra chegar às 6 lá em casa", acrescentou.

Pensei argumentar, mas conclui que não valia a pena. “Essa senhora deve ter acordado de mau humor e está só desopilando o fígado.”

"São Paulo está cada vez mais feia. Veja, os portões de garagens e comércios estão pichados. Dizem que é arte. É vandalismo, isso sim."

O motorista fez uma curva fechada em velocidade que a fez tombar pesadamente para meu lado.

"Como dirige mal", ela rezingou.

Se aprumou no seu canto e pediu desculpa. Esse breve esbarrão a fez recordar que não estava sozinha e me levou a ter voz.

"Qual o seu nome? A senhora é aqui de São Paulo? Vai descer onde?"

Estávamos na Conselheiro Furtado e eu perto do meu destino.

"Na Praça da Sé."

"Que lugar sujo, não é?! Um covil de desocupados, bêbados, drogados. Agora, chamam de pessoas em situação de rua. Minha mãe dizia que uma vassoura varre todos os males. A Prefeitura devia fazer isso, dar uma vassoura pra cada um limpar a sujeira que faz por lá."

Foi quando me arredei do papel de coadjuvante.

"Qual o nome da senhora?"

"Anita." 

Um sorriso que mal lhe desdobrou os lábios deu brilho a seus olhos, antes opacos como vidro fosco.

Aos 87 anos, Anita é professora aposentada. “Não, não tenho filhos, sou solteira e moro com o Afonso, meu cão maltês.” O tom de voz ríspido dos resmungos suavizou ao pronunciar o nome do seu pet. Tem dois irmãos e sobrinhos com quem não convive por desentendimentos sobre a partilha do espólio familiar. “Herdei a diabetes da minha mãe junto com as paredes do apartamento onde morei com meus pais até eles morrerem. É o que me sobrou. Até isso querem tirar de mim." 

Anita tateou com mão trêmula o interior da bolsa que mantinha segura contra o peito de onde tirou um lenço.

Não deu para mais.

O ônibus me despertou com um balanço imprevisto ao entrar na rua Bela Vista e parar na frente do Pátio do Colégio.

"É aqui que eu desço", anunciei.

Fiquei ali por uns instantes, vendo-a se distanciar. De longe, sem pormenores, sem voz, meu aborrecimento serenou. É assim a quinhentos metros. 

Afinal, Anita ainda conservava um resto de humanidade que a fazia sobreviver à crueza da vida. 

LIC