sábado, 2 de maio de 2026

ANITA

 

Às 8 da manhã, o ônibus 508L-10 parou na praça General Polidoro. Naquela terça-feira, como desde alguns meses, lá estava eu esperando por ele. Era o mesmo motorista, o mesmo cobrador, os mesmos passageiros já entrados e, talvez, seriam os mesmos que entrariam.

Bem, nem todos.

O banco de dois lugares, atrás do condutor e antes da catraca, costuma estar vazio. Prefiro ocupar o assento do corredor para me dar a liberdade de sair.

No ponto seguinte, embarcou uma senhora que pediu licença para sentar no meu banco. Era de estatura alta, magra, o rosto tinha cor amarelada e doentia, sem viço, assim como o cabelo tingido com a raiz desbotada. Vestia roupa que cheirava a naftalina.

Juntei as pernas, joelho com joelho, girei-as para a direita, me preparando para dar espaço para ela ocupar o assento na janela.

Sem que eu perguntasse, falou que desceria na Barão de Limeira.

– A senhora vai mais distante do que eu, disse, aliviando minha consciência por não ceder o assento do corredor, mesmo vendo seu esforço em se equilibrar quando o motorista acelerou para escapar do sinal vermelho.

Foi a deixa para ela começar um monólogo. Um solilóquio, na verdade, porque me ter ao seu lado parecia irrelevante. Ela dirigia-se a si mesma, concentrada em si mesma, expondo em voz alta sua existência e idiossincrasias.

– Como esse ônibus demora. Fui fazer exame de sangue aqui por perto, na clínica do meu convênio, cada vez pior. Cobram caro, a mensalidade é um absurdo e diminuíram os lugares de atendimento.

O ônibus descia a Bueno de Andrade.

Ela voltou a falar.

"Que rua suja! É porque lá adiante só tem cortiço", comentou, apontando um dedo acusador para os vários sobrados de fachadas deformadas que existem por ali. "Só assim mesmo pra conseguir morar perto do centro. Minha diarista mora em Itaquera, não paga aluguel, tem casa própria, mas levanta 4 da manhã pra chegar às 6 lá em casa", acrescentou.

Pensei argumentar, mas conclui que não valia a pena. “Essa senhora deve ter acordado de mau humor e está só desopilando o fígado.”

– São Paulo está cada vez mais feia. Veja, os portões de garagens e comércios estão pichados. Dizem que é arte. É vandalismo, isso sim.

O ônibus fez uma curva fechada em velocidade que a fez tombar pesadamente para meu lado.

Como dirigem mal, ela rezingou.

Se aprumou no seu canto e pediu desculpa. Esse breve esbarrão a fez recordar que não estava sozinha e me levou a ter voz.

– Qual o seu nome? A senhora é aqui de São Paulo? Vai descer aonde?

Estávamos na Conselheiro Furtado e eu perto do meu destino.

– Na praça da Sé.

Que lugar sujo, não é?! Um covil de desocupados, bêbados, drogados. Agora, chamam de pessoas em situação de rua. Minha mãe dizia que uma vassoura varre todos os males. A Prefeitura devia fazer isso, dar uma vassoura pra cada um limpar a sujeira que faz por lá.

Então, me arredei do papel de coadjuvante.

Qual o nome da senhora?

– Anita. 

Um sorriso que mal lhe desdobrou os lábios deu brilho a seus olhos, antes opacos como vidro fosco.

Aos 87 anos, Anita é professora aposentada. “Não, não tenho filhos, sou solteira e moro com o Afonso, meu cão maltês.” O tom de voz ríspido dos resmungos suavizou ao pronunciar o nome do seu pet. Tem dois irmãos e sobrinhos com quem não convive por desentendimentos sobre a partilha do espólio familiar. “Herdei a diabetes da minha mãe junto com as paredes do apartamento onde morei com meus pais até eles morrerem. É o que me sobrou. Até isso querem tirar de mim." 

Anita tateou com mão trêmula o interior da bolsa que mantinha segura contra o peito de onde tirou um lenço.

Não deu para mais.

O ônibus me despertou com um balanço imprevisto ao entrar na rua Bela Vista e parar na frente do Pátio do Colégio.

– É aqui que eu desço, anunciei.

Fiquei ali, observando-a partir. Sim, Anita ainda tinha um resto de humanidade que a fazia sobreviver à crueza da vida.

LIC

quinta-feira, 9 de abril de 2026

MUDEI EU OU A KOPENHAGEN?

 


Em um dia de abril, perto da celebração da Páscoa, ganhei dois bombons Cherry Brandy da Kopenhagen.

Há muito tempo, gostava de chocolate, qualquer um – Dan-Top, Dadinho, Sonho de Valsa, Bis, Diamante Negro, Serenata de Amor. Mas, aos 18 anos, comecei a trabalhar e pude satisfazer minha compulsão chocólatra apenas com chocolates da Kopenhagen. Me tornei uma kopenviciada.

Experimentei de tudo – Nhá Benta, Lajotinha, Chumbinho, Língua de Gato e o bombom Cherry Brandy que, dentre todas aquelas delícias, tinha primazia inegociável. A falta de proporcionalidade entre o preço estratosférico desse bombom e meu modesto salário fez com que ele se tornasse um objeto de desejo, uma “miragem” no deserto da minha ansiedade chocolateana.

Essa fissura se tornou conhecida entre familiares e amigos. Ficou fácil me presentear no meu aniversário, no Natal, Páscoa, Dia dos Namorados, Dia das Mães, Dia da Sogra, com uma quantidade a depender da condição financeira do presenteador. Desde que “nasceu” em 1953, paga-se caro por esse prazer. Sua origem é artesanal. Feito e fechado à mão, o processo de fabricação completo leva de 12 a 14 dias. A cereja é chilena, selecionada uma a uma para garantir que seja livre de imperfeições, furos, manchas ou deformações.

Voltando ao início desta crônica, a ofertante entregou o presente se justificando pela quantidade.

Nossa, a Kopenhagen está inacessível. Só deu para comprar dois!

Considerando o contexto econômico de quem me presenteou, os dois bombons ganharam valor sentimental. Considerei que mereciam ser saboreados em uma ocasião especial, a sós, serenamente, ao cair de uma tarde de vento outonal, cenário condizente com o conforto do sabor intenso do licor e do conhaque no recheio.

Mas o frio de verdade estava demorando a chegar.

– Prazer terreno não se adia. Comamos e bebamos que amanhã morreremos.

Convencido por esse raciocínio incontroverso, decidi não esperar por mais tempo as condições ideais. Desembrulhei o papel alumínio vermelho que o envolve e abocanhei a base, a parte inferior, para evitar que a calda líquida escorresse pelos lados.

Feito isso, o impacto foi imediato.

– Não pode ser, que sabor açucarado, doce demais!

O que antes me parecia em perfeito equilíbrio de doçura (do chocolate), acidez (da fruta) e intensidade (do licor), senti desajustado em tudo.

Insisti, comi ele todinho e o segundo também. A sensação de desprazer foi a mesma, a experiência foi insípida, sem graça, sem deleite gustativo.

– Mudei eu ou a Kopenhagen?

Pela primeira vez, me veio à cabeça a ideia clara de que minha memória afetiva fora desativada. Seu efeito “madeleine de Proust” se perdeu pela distância em tempo e espaço daquele primeiro Cherry Brandy que comi aos 18 anos.

Ainda tenho “momentos medeleines” que causam uma inversão do tempo entre o passado e o presente consciente. Quando, ao sentir o aroma do café sou transportada para a cozinha da minha mãe naquelas manhãs de férias na praia. Logo cedinho, ela já estava lá, coando o café. Tomávamos uma xícara sentadas frente a frente, sem palavras. Papai largava o jornal que já lera inteirinho e se juntava a nós. O dia começava.

Mas, em “busca do tempo perdido”, o Cherry Brandy se tornou irrelevante, perdeu a validade.

Eu mudei.

LIC / 2026