quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O PACTO

Alumnas del Colegio Santa Ana, Martín Chambi (1936)

Nasci em um dia do verão de 198_, filha de um comerciante de milho e da professora de literatura espanhola do Colégio Sant’Anna, internato tradicional de Cusco mantido pelas irmãs da Congregação das Filhas de Sant'Anna.

Depois de sucessivos abortos dolorosos para minha mãe, fui a única filha que vingou, o que selou minha vida sob o peso de suas esperanças. Assim como a mãe do profeta Samuel, ela fez um pacto com Deus.

Com cinco anos, fui para a escola pela primeira vez como aluna interna – meus pais criam que as Filhas de Sant’Anna protegeriam meu corpo e minha alma.

Enquanto cada novo período letivo me impunha seu peso na rotina das aulas, no automatismo das preces diárias, no rigor do silêncio, meu coração impaciente vivia na esperança do retorno ao convívio dos meus pais – livre daquela existência que eu acreditava provisória.   

Nas férias em que eu completaria o ensino médio, papai veio sozinho me buscar. Nem me passou pela cabeça que momentos tristes eu teria pela frente. Pelo caminho, me contou que mamãe não estava bem. “É câncer”, por fim ele desabafou com a voz presa na garganta.

Pouco a pouco, fui perdendo sua presença pela distância que cirurgias e internações interpunham entre nós. Lembro-me quando ela morreu – eu tinha 18 anos. Sua morte me proporcionou o que eu considero minha primeira experiência religiosa quando fui levada ao quarto para ver imóvel aquela que fora radiante.

Desconcertado e por julgar não ser bom eu ficar sem mãe, papai me confiou às Filhas de Sant'Anna para uma vida religiosa.

Esta foto registra o dia em que iniciei meu postulado. Assim se cumpria o pacto feito por minha mãe. Ela estava ao meu lado quando, no silêncio da consagração, de joelhos respondi: "Fala, Senhor, porque a tua serva escuta".

 LIC

 

 


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

IGNES E GIUSEPPA

 

Ignes e Giuseppa, Campos do Jordão (1962)

Essas duas senhoras já estavam na casa dos meus pais quando eu nasci.

Ignes, à esquerda na foto, aparece com a mesma idade que tenho hoje. Nascida no Brasil e descendente de italianos, casou-se com um imigrante de Pádua. Apesar de austero, Caetano não conseguiu abafar o espírito alegre da esposa, que se schiattava de rir com a “Praça da Alegria”, um programa humorístico de televisão dos anos sessenta. Depois da viuvez, vó Ínes (como eu a chamava) foi morar na edícula do sobrado doado por ela como herança para minha mãe. Era lá que meus irmãos e eu nos reuníamos à tarde, para ajudá-la a costurar botões em cartelas – seu jeito de ajuntar uns trocados à aposentadoria.

Ao seu lado está Giuseppa, vó Josefina, nascida em Perugia, que imigrou com a família para as Américas. Seus pais e irmãs desembarcaram na Argentina; ela e Fernando, imigrante de Nápoles e seu futuro marido, ficaram no Brasil. Estabeleceram-se no interior de São Paulo onde constituíram família e patrimônio. A febre tifoide trouxe-lhe a viuvez e pobreza logo após o nascimento do sétimo filho – meu pai, com quem ela foi morar depois do seu casamento com minha mãe. No sobrado da rua dos Patriotas 697, dividíamos um quarto. Depois de lhe pedir a bênção, entregava-me em segurança ao sono, embalada pela seriedade de sua oração: “Deus que mande a santa e boa noite”.

Suas histórias entrelaçavam-se nas colchas de crochê que teciam à tardinha, na modelagem à mão de cajuzinhos para as festas de aniversário, enquanto assistiam telenovela à noitinha e nas preocupadas confidências sobre os filhos.

Convivemos até o fim de suas vidas e minha história entreteceu-se com a delas em tão estreita simbiose que a morte não desfez. Mais de meio século, eis-me aqui relembrando nosso passado.

 LIC