quinta-feira, 9 de abril de 2026

MUDEI EU OU A KOPENHAGEN?

 


Em um dia de abril, perto da celebração da Páscoa, ganhei dois bombons Cherry Brandy da Kopenhagen.

Há muito tempo, gostava de chocolate, qualquer um – Dan-Top, Dadinho, Sonho de Valsa, Bis, Diamante Negro, Serenata de Amor. Mas, aos 18 anos, comecei a trabalhar e pude satisfazer minha compulsão chocólatra apenas com chocolates da Kopenhagen. Me tornei uma kopenviciada.

Experimentei de tudo – Nhá Benta, Lajotinha, Chumbinho, Língua de Gato e o bombom Cherry Brandy que, dentre todas aquelas delícias, tinha primazia inegociável. A falta de proporcionalidade entre o preço estratosférico desse bombom e meu modesto salário fez com que ele se tornasse um objeto de desejo, uma “miragem” no deserto da minha ansiedade chocolateana.

Essa fissura se tornou conhecida entre familiares e amigos. Ficou fácil me presentear no meu aniversário, no Natal, Páscoa, Dia dos Namorados, Dia das Mães, Dia da Sogra, com uma quantidade a depender da condição financeira do presenteador. Desde que “nasceu” em 1953, paga-se caro por esse prazer. Sua origem é artesanal. Feito e fechado à mão, o processo de fabricação completo leva de 12 a 14 dias. A cereja é chilena, selecionada uma a uma para garantir que seja livre de imperfeições, furos, manchas ou deformações.

Voltando ao início desta crônica, a ofertante entregou o presente se justificando pela quantidade.

Nossa, a Kopenhagen está inacessível. Só deu para comprar dois!

Considerando o contexto econômico de quem me presenteou, os dois bombons ganharam valor sentimental. Considerei que mereciam ser saboreados em uma ocasião especial, a sós, serenamente, ao cair de uma tarde de vento outonal, cenário condizente com o conforto do sabor intenso do licor e do conhaque no recheio.

Mas o frio de verdade estava demorando a chegar.

– Prazer terreno não se adia. Comamos e bebamos que amanhã morreremos.

Convencido por esse raciocínio incontroverso, decidi não esperar por mais tempo as condições ideais. Desembrulhei o papel alumínio vermelho que o envolve e abocanhei a base, a parte inferior, para evitar que a calda líquida escorresse pelos lados.

Feito isso, o impacto foi imediato.

– Não pode ser, que sabor açucarado, doce demais!

O que antes me parecia em perfeito equilíbrio de doçura (do chocolate), acidez (da fruta) e intensidade (do licor), senti desajustado em tudo.

Insisti, comi ele todinho e o segundo também. A sensação de desprazer foi a mesma, a experiência foi insípida, sem graça, sem deleite gustativo.

– Mudei eu ou a Kopenhagen?

Pela primeira vez, me veio à cabeça a ideia clara de que minha memória afetiva fora desativada. Seu efeito “madeleine de Proust” se perdeu pela distância em tempo e espaço daquele primeiro Cherry Brandy que comi aos 18 anos.

Ainda tenho “momentos medeleines” que causam uma inversão do tempo entre o passado e o presente consciente. Quando, ao sentir o aroma do café sou transportada para a cozinha da minha mãe naquelas manhãs de férias na praia. Logo cedinho, ela já estava lá, coando o café. Tomávamos uma xícara sentadas frente a frente, sem palavras. Papai largava o jornal que já lera inteirinho e se juntava a nós. O dia começava.

Mas, em “busca do tempo perdido”, o Cherry Brandy se tornou irrelevante, perdeu a validade.

Eu mudei.

LIC / 2026

 

 

 

  

 

 


quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

À ESPERA

Uma espera que cresce a cada semana e que encontrará satisfação quando os sinos da Missa do Galo anunciarem que o Verbo se fez carne.  

Com essa Boa Nova, seremos colocados diante do Menino na manjedoura.

Estendendo as mãos, Ele nos dirá o que mais tarde seus lábios de Mestre repetirão até o último suspiro na cruz: Segue-Me.

LIC