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| Dona Baratinha (2026), Carolina Brandimarti |
Passava de meia-noite quando roncos do meu estômago exigiram
minha atenção. “Tenho dois pedaços da pizza de ontem”, lembrei, salivando de
antecipação.
Pausei “Sol de Inverno” na cena sem palavras, num intervalo
de tempo contemplativo, em que os protagonistas se encontravam frente a frente
sem saber o que dizer um ao outro.
Saindo pela penumbra do quarto às apalpadelas, entrei na
cozinha guiada pela luminosidade tênue da lâmpada do exaustor. Ao abrir a
gaveta dos talheres, eu a vi caminhando sobre a borda lateral. Eu não esperava
por isso. Me assustei, ela se assustou. Em segundos, as pontas dos meus dedos
formigaram, calafrios eletrizaram meu corpo e me deram tal energia que fechei a
gaveta com um pontapé na intenção de esmagá-la.
No silêncio daquela madrugada, meu grito de horror visceral ecoou
no vazio. Eu estava sozinha diante do perigo!
– Que nojo! Odeio baratas!
Perdi a fome e o fim do filme. Desandei para o quarto não sem
antes trancar a porta da cozinha que dá acesso à sala, a porta da sala que dá
acesso aos quartos e a porta do meu quarto. Desliguei a televisão e me deitei embrulhada
no lençol da cabeça aos pés como um rolinho primavera.
Dentre as criaturas viventes, sou da espécie considerada
racional, mas fobia é da classe de irracionalidades reptilianas e uma barata, não
importa o tamanho, tipo, se voa ou corre, será sempre uma barata.
“Deus do céu, por que existem baratas? Se nada existe por
nada, elas devem ter utilidade.” Não havia como descobrir porque meu celular
estava na sala. Dormi na ignorância dos propósitos do Criador.
Dia seguinte, esperei o dia clarear para entrar na cena do
crime porque pelo pouco que sei sobre esse inseto é que ele foge da luz. Como acreditei
que conseguira matá-la por esmagamento, coloquei luvas cirúrgicas para abrir a
gaveta dos talheres. A repulsa arrepiava meu corpo. Não encontrei nenhum detrito,
o que me foi lícito concluir que ela fugira ao sentir minha presença.
Um estrondo ecoou pela cozinha com o choque brutal de
garfos, colheres e facas na cuba de metal. Abri a torneira deixando que a água quente
cobrisse todos eles, quase inundando a pia. Com o vapor escaldante misturado ao
cheiro agressivo do detergente me veio uma onda de enjoo forte, mas não interrompi
a lavagem. Me sustentou ali a lembrança do toque asqueroso das patas espinhosas
daquele inseto sobre os talheres.
Finalizada a tarefa, rolando a tela do celular, encontrei o
propósito louvável do Criador ao dar vida a baratas, com um design perfeito e
eficiente para suas funções.
À tardezinha, empurrei o êmbolo da primeira ampola nas frestas do armário e das gavetas, espalhando gotas de veneno como quem fortifica uma trincheira antes da invasão.
Sou mais frágil do que perversa. Deus há de me perdoar.
LIC
