sexta-feira, 30 de outubro de 2026

DONA BARATINHA

 

Dona Baratinha (2026), Carolina Brandimarti

Passava de meia-noite quando roncos do meu estômago exigiram minha atenção. “Tenho dois pedaços da pizza de ontem”, lembrei, salivando de antecipação.

Pausei “Sol de Inverno” na cena sem palavras, num intervalo de tempo contemplativo, em que os protagonistas se encontravam frente a frente sem saber o que dizer um ao outro. 

Saindo pela penumbra do quarto às apalpadelas, entrei na cozinha guiada pela luminosidade tênue da lâmpada do exaustor. Ao abrir a gaveta dos talheres, eu a vi caminhando sobre a borda lateral. Eu não esperava por isso. Me assustei, ela se assustou. Em segundos, as pontas dos meus dedos formigaram, calafrios eletrizaram meu corpo e me deram tal energia que fechei a gaveta com um pontapé na intenção de esmagá-la.

No silêncio daquela madrugada, meu grito de horror visceral ecoou no vazio. Eu estava sozinha diante do perigo!

– Que nojo! Odeio baratas!

Perdi a fome e o fim do filme. Desandei para o quarto não sem antes trancar a porta da cozinha que dá acesso à sala, a porta da sala que dá acesso aos quartos e a porta do meu quarto. Desliguei a televisão e me deitei embrulhada no lençol da cabeça aos pés como um rolinho primavera.

Dentre as criaturas viventes, sou da espécie considerada racional, mas fobia é da classe de irracionalidades reptilianas e uma barata, não importa o tamanho, tipo, se voa ou corre, será sempre uma barata.

“Deus do céu, por que existem baratas? Se nada existe por nada, elas devem ter utilidade.” Não havia como descobrir porque meu celular estava na sala. Dormi na ignorância dos propósitos do Criador.

Dia seguinte, esperei o dia clarear para entrar na cena do crime porque pelo pouco que sei sobre esse inseto é que ele foge da luz. Como acreditei que conseguira matá-la por esmagamento, coloquei luvas cirúrgicas para abrir a gaveta dos talheres. A repulsa arrepiava meu corpo. Não encontrei nenhum detrito, o que me foi lícito concluir que ela fugira ao sentir minha presença.

Um estrondo ecoou pela cozinha com o choque brutal de garfos, colheres e facas na cuba de metal. Abri a torneira deixando que a água quente cobrisse todos eles, quase inundando a pia. Com o vapor escaldante misturado ao cheiro agressivo do detergente me veio uma onda de enjoo forte, mas não interrompi a lavagem. Me sustentou ali a lembrança do toque asqueroso das patas espinhosas daquele inseto sobre os talheres.

Finalizada a tarefa, rolando a tela do celular, encontrei o propósito louvável do Criador ao dar vida a baratas, com um design perfeito e eficiente para suas funções.

À tardezinha, empurrei o êmbolo da primeira ampola nas frestas do armário e das gavetas, espalhando gotas de veneno como quem fortifica uma trincheira antes da invasão. 

Sou mais frágil do que perversa. Deus há de me perdoar.

LIC