quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O DIAGNÓSTICO E A CAUSA

 

Perplexo com o que acontecera, Igor se trancou na biblioteca. Sentado na poltrona de vime que a esposa lhe dera ao completar 60 anos, apoiado no braço direito do móvel, com a cabeça sustentada pela mão, cenho franzido, seu olhar vagou por aquele dia.

“É para seu canto de leitura, querido. Encontrei essa peça seminova no antiquário do Pierre Nielsen, um colega da faculdade. Ele trocou o estetoscópio pela beleza do que resiste ao tempo.”

Como uma sentinela controlando o acesso de entrada, Igor encostou a cadeira próxima à porta. Estar só era uma necessidade premente para tentar compreender o que vinha acontecendo com Virginia.

Há algum tempo, durante o jantar – única refeição em família –, Igor começara a notar certo distanciamento de Virginia, desatenta a ele próprio e à tagarelice de Lorena, a filha de 7 anos, respondendo-lhes com irritação e impaciência.

Quem veria naquela mulher aérea a aluna dedicada que assistia fascinada às suas aulas de semiologia?

Naquela noite, percebera também tremor nas suas mãos a ponto de, ao servir a canja, derrubar o caldo quente no colo da menina que, de um salto, se pôs a gritar.

Despertando abruptamente, Virginia acudiu a filha entre lágrimas e beijos. Ergueu Lorena no colo e, em direção à escada para os quartos, recusou a ajuda de Igor. “Deixe que eu cuido de Lorena sozinha” – respondera rispidamente.

O badalar do relógio lembrou Igor que a noite avançara. Chegara a um possível diagnóstico. “Virginia deve estar no início de um Parkinson precoce.”

O som do choro de Virginia na cozinha alcançou Igor assim que abriu a porta. Respeitando sua tristeza e a provável doença, resolveu deixá-la só e foi dormir.

Virginia escrevia a carta que Igor encontraria de manhã sobre o travesseiro da esposa, explicando-lhe porque fora embora com Pierre.

LIC


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

BOLETIM DE OCORRÊNCIA

 

No dia 10 de agosto de 20..., exatamente sete anos depois do início do meu trabalho como governanta na casa dos Von Mayer, acordei às 5 horas da manhã para preparar o desjejum da família. 

Os Von Mayer, descendentes de austríacos de Salzburgo, tinham hábitos precisos e rotineiros para seu dia a dia. De segunda a sexta-feira, dali duas horas, todos estariam acordados, sentados à mesa da copa, se servindo de pães crocantes, acompanhados de geleia, queijo e presunto, ovos e uma boa xícara de café para o casal e chocolate morno para as crianças. 

O ônibus escolar passaria às 7h30 para levar Katharina e Gustavo ao colégio e, pontualmente às 8h, dr. Alberto abriria seu consultório na sala do andar térreo do sobrado. Dona Astrid se encerrava em seu ateliê, entregue ao que ela dizia ser sua única paixão: pintar. Talvez houvesse nesse isolamento a busca por uma necessidade de descontração. 

Depois de lavar a louça e colocar em ordem a cozinha, subi para arrumar os dormitórios. Já eram 9h. Como não era comum encontrar fechada a porta do quarto do casal, parei indecisa se deveria avançar.

“Não, não devo”, decidi, principalmente porque comecei a escutar sons confusos, murmúrios, vozes abafadas, ruídos contínuos que me pareceram soluços contidos. Resolvi mudar a programação de limpeza daquele dia. “Vou começar pela biblioteca e lavabo.” 

No instante em que volvia meu corpo na direção da escada que me levaria ao primeiro piso, estanquei bruscamente ao ouvir o estampido de um tiro. Segundos depois, dr. Alberto abriu a porta. Com um olhar petrificado, inexpressivo, as narinas dilatadas e os dentes cerrados, repetia gargalhando estridentemente, incontrolável: “Astrid está morta, eu a matei”. Apontando o revólver para a cabeça, entre os olhos, se suicidou. 

Eram 9h30 da manhã.

LIC