quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O PACTO

Alumnas del Colegio Santa Ana, Martín Chambi (1936)

Nasci em um dia do verão de 198_, filha de um comerciante de milho e da professora de literatura espanhola do Colégio Sant’Anna, internato tradicional de Cusco mantido pelas irmãs da Congregação das Filhas de Sant'Anna.

Depois de sucessivos abortos dolorosos para minha mãe, fui a única filha que vingou, o que selou minha vida sob o peso de suas esperanças. Assim como a mãe do profeta Samuel, ela fez um pacto com Deus.

Com cinco anos, fui para a escola pela primeira vez como aluna interna – meus pais criam que as Filhas de Sant’Anna protegeriam meu corpo e minha alma.

Enquanto cada novo período letivo me impunha seu peso na rotina das aulas, no automatismo das preces diárias, no rigor do silêncio, meu coração impaciente vivia na esperança do retorno ao convívio dos meus pais – livre daquela existência que eu acreditava provisória.   

Nas férias em que eu completaria o ensino médio, papai veio sozinho me buscar. Nem me passou pela cabeça que momentos tristes eu teria pela frente. Pelo caminho, me contou que mamãe não estava bem. “É câncer”, por fim ele desabafou com a voz presa na garganta.

Pouco a pouco, fui perdendo sua presença pela distância que cirurgias e internações interpunham entre nós. Lembro-me quando ela morreu – eu tinha 18 anos. Sua morte me proporcionou o que eu considero minha primeira experiência religiosa quando fui levada ao quarto para ver imóvel aquela que fora radiante.

Desconcertado e por julgar não ser bom eu ficar sem mãe, papai me confiou às Filhas de Sant'Anna para uma vida religiosa.

Esta foto registra o dia em que iniciei meu postulado. Assim se cumpria o pacto feito por minha mãe. Ela estava ao meu lado quando, no silêncio da consagração, de joelhos respondi: "Fala, Senhor, porque a tua serva escuta".

 LIC

 

 


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

IGNES E GIUSEPPA

 

Ignes e Giuseppa, Campos do Jordão (1962)

Essas duas senhoras já estavam na casa dos meus pais quando eu nasci.

Ignes, à esquerda na foto, aparece com a mesma idade que tenho hoje. Nascida no Brasil e descendente de italianos, casou-se com um imigrante de Pádua. Apesar de austero, Caetano não conseguiu abafar o espírito alegre da esposa, que se schiattava de rir com a “Praça da Alegria”, um programa humorístico de televisão dos anos sessenta. Depois da viuvez, vó Ínes (como eu a chamava) foi morar na edícula do sobrado doado por ela como herança para minha mãe. Era lá que meus irmãos e eu nos reuníamos à tarde, para ajudá-la a costurar botões em cartelas – seu jeito de ajuntar uns trocados à aposentadoria.

Ao seu lado está Giuseppa, vó Josefina, nascida em Perugia, que imigrou com a família para as Américas. Seus pais e irmãs desembarcaram na Argentina; ela e Fernando, imigrante de Nápoles e seu futuro marido, ficaram no Brasil. Estabeleceram-se no interior de São Paulo onde constituíram família e patrimônio. A febre tifoide trouxe-lhe a viuvez e pobreza logo após o nascimento do sétimo filho – meu pai, com quem ela foi morar depois do seu casamento com minha mãe. No sobrado da rua dos Patriotas 697, dividíamos um quarto. Depois de lhe pedir a bênção, entregava-me em segurança ao sono, embalada pela seriedade de sua oração: “Deus que mande a santa e boa noite”.

Suas histórias entrelaçavam-se nas colchas de crochê que teciam à tardinha, na modelagem à mão de cajuzinhos para as festas de aniversário, enquanto assistiam telenovela à noitinha e nas preocupadas confidências sobre os filhos.

Convivemos até o fim de suas vidas e minha história entreteceu-se com a delas em tão estreita simbiose que a morte não desfez. Mais de meio século, eis-me aqui relembrando nosso passado.

 LIC

 

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O DIAGNÓSTICO E A CAUSA

 

Portrait of Vilhelm Hammershøi (1864-1916)

Perplexo com o que acontecera, Igor se trancou na biblioteca. Sentado na poltrona de vime que a esposa lhe dera ao completar 60 anos, apoiado no braço direito do móvel, com a cabeça sustentada pela mão, cenho franzido, seu olhar vagou por aquele dia.

“É para seu canto de leitura, querido. Encontrei essa peça seminova no antiquário do Pierre Nielsen, um colega da faculdade. Ele trocou o estetoscópio pela beleza do que resiste ao tempo.”

Como uma sentinela controlando o acesso de entrada, Igor encostou a cadeira próxima à porta. Estar só era uma necessidade premente para tentar compreender o que vinha acontecendo com Virginia.

Há algum tempo, durante o jantar – única refeição em família –, Igor começara a notar certo distanciamento de Virginia, desatenta a ele próprio e à tagarelice de Lorena, a filha de 7 anos, respondendo-lhes com irritação e impaciência.

Quem veria naquela mulher aérea a aluna dedicada que assistia fascinada às suas aulas de semiologia?

Naquela noite, percebera também tremor nas suas mãos a ponto de, ao servir a canja, derrubar o caldo quente no colo da menina que, de um salto, se pôs a gritar.

Despertando abruptamente, Virginia acudiu a filha entre lágrimas e beijos. Ergueu Lorena no colo e, em direção à escada para os quartos, recusou a ajuda de Igor. “Deixe que eu cuido de Lorena sozinha” – respondera rispidamente.

O badalar do relógio lembrou Igor que a noite avançara. Chegara a um possível diagnóstico. “Virginia deve estar no início de um Parkinson precoce.”

O som do choro de Virginia na cozinha alcançou Igor assim que abriu a porta. Respeitando sua tristeza e a provável doença, resolveu deixá-la só e foi dormir.

Virginia escrevia a carta que Igor encontraria de manhã sobre o travesseiro da esposa, explicando-lhe porque fora embora com Pierre.

LIC


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

BOLETIM DE OCORRÊNCIA

 

Interior (1899), Vilhelm Hammershøi

No dia 10 de agosto de 20..., exatamente sete anos depois do início do meu trabalho como governanta na casa dos Von Mayer, acordei às 5 horas da manhã para preparar o desjejum da família. 

Os Von Mayer, descendentes de austríacos de Salzburgo, tinham hábitos precisos e rotineiros para seu dia a dia. De segunda a sexta-feira, dali duas horas, todos estariam acordados, sentados à mesa da copa, se servindo de pães crocantes, acompanhados de geleia, queijo e presunto, ovos e uma boa xícara de café para o casal e chocolate morno para as crianças. 

O ônibus escolar passaria às 7h30 para levar Katharina e Gustavo ao colégio e, pontualmente às 8h, dr. Alberto abriria seu consultório na sala do andar térreo do sobrado. Dona Astrid se encerrava em seu ateliê, entregue ao que ela dizia ser sua única paixão: pintar. Talvez houvesse nesse isolamento a busca por uma necessidade de descontração. 

Depois de lavar a louça e colocar em ordem a cozinha, subi para arrumar os dormitórios. Já eram 9h. Como não era comum encontrar fechada a porta do quarto do casal, parei indecisa se deveria avançar.

“Não, não devo”, decidi, principalmente porque comecei a escutar sons confusos, murmúrios, vozes abafadas, ruídos contínuos que me pareceram soluços contidos. Resolvi mudar a programação de limpeza daquele dia. “Vou começar pela biblioteca e lavabo.” 

No instante em que volvia meu corpo na direção da escada que me levaria ao primeiro piso, estanquei bruscamente ao ouvir o estampido de um tiro. Segundos depois, dr. Alberto abriu a porta. Com um olhar petrificado, inexpressivo, as narinas dilatadas e os dentes cerrados, repetia gargalhando estridentemente, incontrolável: “Astrid está morta, eu a matei”. Apontando o revólver para a cabeça, entre os olhos, se suicidou. 

Eram 9h30 da manhã.

LIC

sábado, 4 de julho de 2026

ETERNIDADE

 

Me sentirei só
quando a morte meus olhos cegar
e entregue meu corpo aos vermes
minha alma pelo infinito
infinita 
mente 
vagar.


Despido de vaidades
sem sonhos
liberto dos desejos
um dia retornarei.


Quem fui?
Quem serei?


Então, ouvirei: És a luz do mundo, peregrino, vagando à sombra eterna de Deus.

LIC

quarta-feira, 24 de junho de 2026

O PORTÃO DE FERRO

 

Desde a manhã bem cedo daquele sábado 25 de abril, o tempo e a temperatura favoreciam meu desejo de isolamento e de contato com a Natureza.

Eu estava tão exausto do trabalho, insatisfeito comigo mesmo ao lembrar como era minha rotina há mais de cinco anos, que aceitei o convite de uma amiga para passar o dia distante do mundo urbano.

O lugar escolhido era um refúgio de silêncio, "onde tudo era bom, onde tudo funcionava em perfeita paz e equilíbrio”, como no Princípio. Formigas carregando seus fardos, pássaros em voos frenéticos e agitados, minhocas se alimentando, escavando e excretando, aranhas construindo armadilhas para capturar presas, impulsionados pelo instinto cego de sobrevivência.

Sentada em um dos bancos de madeira espalhados pelo pátio daquela casa de retiro, eu meditava o requinte do cosmos diante de um jatobá centenário. Eram 11 da manhã, lembro perfeitamente porque o sino da capela soou, quando resolvi me afastar o suficiente para ninguém me perturbar. 

De maneira inesperada, um vento tempestuoso cortou o ar em turbilhão, fazendo voar em abundância as folhas envelhecidas daquela árvore, que cobrearam o chão de cimento batido.

A violência dessa manifestação da Natureza me despertou um sentimento profundo, como se houvesse uma intervenção divina por trás desse acontecimento. Foi quando me pareceu ouvir uma voz dizendo “eis que faço novas todas a coisas”.

Olhei ao redor procurando quem seria. Ninguém à direita, ninguém à esquerda nem à frente nem atrás. Àquela hora todos tinham se recolhido para o almoço. Eu me demorara guardando meus pertences.

Mas, como Elias no monte Horebe, aguardei mais instruções. Uns minutos imóvel à espera aumentou meu foco no momento presente e meu horizonte visual.

Lá adiante, estacado na calçada em frente do portão de ferro fundido, estava um homem com a pele enegrecida pela sujidade do mundo, sob uma manta de pobre, daquelas que cobrem a cabeça e descobrem os pés, segurando uma sacola vazia de supermercado.

Seus olhos cinzentos, que estavam voltados para mim de forma fixa, me incomodaram e me pus prevenida. Foi quando algo oportuno alterou minha visão e despertou meu estômago: o sino da capela marcou o meio-dia.

“Ele deve estar com fome e eu também.”

Desviei meu olhar, lhe dei as costas e fui para o refeitório. “Deve ser um pedinte da casa; logo alguém virá lhe trazer um prato de comida.”

Não avisei aos funcionários sobre sua presença nem comentei com ninguém, ainda mais porque aquele era um retiro de silêncio onde até sussurros eram proibidos. Então me sentei sozinha e escolhi uma mesa defronte a uma janela. Caprichei na hora de montar meu prato e na porção da sobremesa.

Ao me sentar, através daquela janela, eu o vi, aquela presença estranha, ainda do lado de fora do portão de ferro.

Um tal sentimento de aborrecimento tomou conta de mim que amargou o sabor da primeira garfada. Eu continuava do lado de dentro do portão de ferro.

Seria isso mais uma intromissão divina?

Devolvi a sobremesa.

LIC

sábado, 2 de maio de 2026

ANITA

 

Às 8 da manhã, o ônibus 508L-10 parou na praça General Polidoro. Naquela terça-feira, como desde alguns meses, lá estava eu esperando por ele. Era o mesmo motorista, o mesmo cobrador, os mesmos passageiros já entrados e, talvez, seriam os mesmos que entrariam.

Bem, nem todos.

O banco de dois lugares, atrás do condutor e antes da catraca, costuma estar vazio. Prefiro ocupar o assento do corredor para me dar a liberdade de sair.

No ponto seguinte, embarcou uma senhora que pediu licença para sentar no meu banco. Era de estatura alta, magra, o rosto tinha cor amarelada e doentia, sem viço, assim como o cabelo tingido com a raiz desbotada. Sua roupa cheirava a naftalina.

Juntei as pernas, joelho com joelho, girei-as para a direita, me preparando para dar espaço para ela ocupar o assento na janela.

Sem que eu perguntasse, falou que desceria na Barão de Limeira.

"A senhora vai mais distante do que eu", disse, aliviando minha consciência por não ceder o assento do corredor, mesmo vendo seu esforço em se equilibrar quando o motorista acelerou para escapar do sinal vermelho.

Foi a deixa para ela começar um monólogo. Um solilóquio, na verdade, porque me ter ao seu lado parecia irrelevante. Ela dirigia-se a si mesma, ensimesmadaexpondo em voz alta sua existência e idiossincrasias.

"Como esse ônibus demora. Fui fazer exame de sangue aqui por perto, na clínica do meu convênio, cada vez pior. Cobram caro, a mensalidade é um absurdo e diminuíram os lugares de atendimento."

O ônibus descia a Bueno de Andrade.

"Que rua suja! É porque lá adiante só tem cortiço", comentou, apontando um dedo acusador para os vários sobrados de fachadas deformadas que existem por ali. "Só assim mesmo pra conseguir morar perto do centro. Minha diarista mora em Itaquera, não paga aluguel, tem casa própria, mas levanta 4 da manhã pra chegar às 6 lá em casa", acrescentou.

Pensei argumentar, mas conclui que não valia a pena. “Essa senhora deve ter acordado de mau humor e está só desopilando o fígado.”

"São Paulo está cada vez mais feia. Veja, os portões de garagens e comércios estão pichados. Dizem que é arte. É vandalismo, isso sim."

O motorista fez uma curva fechada em velocidade que a fez tombar pesadamente para meu lado.

"Como dirige mal", ela rezingou.

Se aprumou no seu canto e pediu desculpa. Esse breve esbarrão a fez recordar que não estava sozinha e me levou a ter voz.

"Qual o seu nome? A senhora é aqui de São Paulo? Vai descer onde?"

Estávamos na Conselheiro Furtado e eu perto do meu destino.

"Na Praça da Sé."

"Que lugar sujo, não é?! Um covil de desocupados, bêbados, drogados. Agora, chamam de pessoas em situação de rua. Minha mãe dizia que uma vassoura varre todos os males. A Prefeitura devia fazer isso, dar uma vassoura pra cada um limpar a sujeira que faz por lá."

Foi quando me arredei do papel de coadjuvante.

"Qual o nome da senhora?"

"Anita." 

Um sorriso que mal lhe desdobrou os lábios deu brilho a seus olhos, antes opacos como vidro fosco.

Aos 87 anos, Anita é professora aposentada. “Não, não tenho filhos, sou solteira e moro com o Afonso, meu cão maltês.” O tom de voz ríspido dos resmungos suavizou ao pronunciar o nome do seu pet. Tem dois irmãos e sobrinhos com quem não convive por desentendimentos sobre a partilha do espólio familiar. “Herdei a diabetes da minha mãe junto com as paredes do apartamento onde morei com meus pais até eles morrerem. É o que me sobrou. Até isso querem tirar de mim." 

Anita tateou com mão trêmula o interior da bolsa que mantinha segura contra o peito de onde tirou um lenço.

Não deu para mais.

O ônibus me despertou com um balanço imprevisto ao entrar na rua Bela Vista e parar na frente do Pátio do Colégio.

"É aqui que eu desço", anunciei.

Fiquei ali por uns instantes, vendo-a se distanciar. De longe, sem pormenores, sem voz, meu aborrecimento serenou. É assim a quinhentos metros. 

Afinal, Anita ainda conservava um resto de humanidade que a fazia sobreviver à crueza da vida. 

LIC

quinta-feira, 9 de abril de 2026

MUDEI EU OU A KOPENHAGEN?

 


Em um dia de abril, perto da celebração da Páscoa, ganhei dois bombons Cherry Brandy da Kopenhagen.

Há muito tempo, gostava de chocolate, qualquer um – Dan-Top, Dadinho, Sonho de Valsa, Bis, Diamante Negro, Serenata de Amor. Mas, aos 18 anos, comecei a trabalhar e pude satisfazer minha compulsão chocólatra apenas com chocolates da Kopenhagen. Me tornei uma kopenviciada.

Experimentei de tudo – Nhá Benta, Lajotinha, Chumbinho, Língua de Gato e o bombom Cherry Brandy que, dentre todas aquelas delícias, tinha primazia inegociável. A falta de proporcionalidade entre o preço estratosférico desse bombom e meu modesto salário fez com que ele se tornasse um objeto de desejo, uma “miragem” no deserto da minha ansiedade chocolateana.

Essa fissura se tornou conhecida entre familiares e amigos. Ficou fácil me presentear no meu aniversário, no Natal, Páscoa, Dia dos Namorados, Dia das Mães, Dia da Sogra, com uma quantidade a depender da condição financeira do presenteador. Desde que “nasceu” em 1953, paga-se caro por esse prazer. Sua origem é artesanal. Feito e fechado à mão, o processo de fabricação completo leva de 12 a 14 dias. A cereja é chilena, selecionada uma a uma para garantir que seja livre de imperfeições, furos, manchas ou deformações.

Voltando ao início desta crônica, a ofertante entregou o presente se justificando pela quantidade.

Nossa, a Kopenhagen está inacessível. Só deu para comprar dois!

Considerando o contexto econômico de quem me presenteou, os dois bombons ganharam valor sentimental. Considerei que mereciam ser saboreados em uma ocasião especial, a sós, serenamente, ao cair de uma tarde de vento outonal, cenário condizente com o conforto do sabor intenso do licor e do conhaque no recheio.

Mas o frio de verdade estava demorando a chegar.

– Prazer terreno não se adia. Comamos e bebamos que amanhã morreremos.

Convencido por esse raciocínio incontroverso, decidi não esperar por mais tempo as condições ideais. Desembrulhei o papel alumínio vermelho que o envolve e abocanhei a base, a parte inferior, para evitar que a calda líquida escorresse pelos lados.

Feito isso, o impacto foi imediato.

– Não pode ser, que sabor açucarado, doce demais!

O que antes me parecia em perfeito equilíbrio de doçura (do chocolate), acidez (da fruta) e intensidade (do licor), senti desajustado em tudo.

Insisti, comi ele todinho e o segundo também. A sensação de desprazer foi a mesma, a experiência foi insípida, sem graça, sem deleite gustativo.

– Mudei eu ou a Kopenhagen?

Pela primeira vez, me veio à cabeça a ideia clara de que minha memória afetiva fora desativada. Seu efeito “madeleine de Proust” se perdeu pela distância em tempo e espaço daquele primeiro Cherry Brandy que comi aos 18 anos.

Ainda tenho “momentos medeleines” que causam uma inversão do tempo entre o passado e o presente consciente. Quando, ao sentir o aroma do café sou transportada para a cozinha da minha mãe naquelas manhãs de férias na praia. Logo cedinho, ela já estava lá, coando o café. Tomávamos uma xícara sentadas frente a frente, sem palavras. Papai largava o jornal que já lera inteirinho e se juntava a nós. O dia começava.

Mas, em “busca do tempo perdido”, o Cherry Brandy se tornou irrelevante, perdeu a validade.

Eu mudei.

LIC / 2026

 

 

 

  

 

 


quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

À ESPERA

Uma espera que cresce a cada semana e que encontrará satisfação quando os sinos da Missa do Galo anunciarem que o Verbo se fez carne.  

Com essa Boa Nova, seremos colocados diante do Menino na manjedoura.

Estendendo as mãos, Ele nos dirá o que mais tarde seus lábios de Mestre repetirão até o último suspiro na cruz: Segue-Me.

LIC

sábado, 6 de dezembro de 2025

O QUE REALMENTE IMPORTA

Naquele dia, logo muito cedo para mim que estava no Brasil, minha filha me telefonou da Itália para contar o que fizera naquele primeiro mês do seu ano sabático.

Nossa conversa durou pouquíssimos minutos porque o telefone do seu quarto tocou. O guia que ela contratara para uma excursão a Nápoles estava à espera no saguão do hotel.

“Bom, acho que vou indo, mãe. Tchau.”

Depois de tanto tempo distantes, eu esperava uma longa conversa repleta de detalhes. Essa despedida abrupta foi a deixa para eu dizer à Júlia o que eu disse, e de pronto.

Me sentindo atropelada e preterida pela insignificância de um passeio em Nápoles, o sabor amargo do ciúme fez meu ego se dilatar, autenticado por uma atitude insegura, confesso, de mãe.

Sim, sua filha está crescendo e se afastando escutei alguém “lá dentro” me dizendo assim que deliguei o telefone.

Abespinhada, fui caminhar. Dizem que caminhar tem efeito calmante, ajuda a processar pensamentos, clareia os bastidores da mente.

Trinta e cinco minutos foram suficientes para suar e me arrepender. Não, não de caminhar. De ter dito o que eu disse no calor da hora. Não no calor da caminhada, mas no calor do momento da despedida.

Chegando em casa, peguei o celular com a intenção de chamá-la para me explicar. Não atendeu.

Mais uma vez, naquele dia, meu ego se aprumou irritado. Tornei a validá-lo.

“Deixa estar, um dia ela vai me dar razão.”

Procurando esquecer o incidente, toquei o restante do dia como de costume, guardando nos porões do inconsciente o incidente daquela manhã.

A noite chegou e deixou sua marca, um pesadelo vívido e perturbador.

Júlia caminhava sozinha por uma cidade pichada em meio a um trânsito caótico. Carros circulavam alucinadamente por vias estreitas de mão dupla. Num beco sem saída, uma rua deserta apenas iluminada pelo letreiro de néon de uma danceteria que piscava interruptamente se destacava uma palavra em vermelho: “Napoli”. Um vulto sombrio envolto numa capa negra guardava a entrada. Júlia correu para lá, encharcada da chuva que começara repentinamente. Relâmpagos, trovões, um vento intenso, fez que ela se abrigasse sob o toldo daquele lugar. Ao mesmo tempo, olhando para todos os lados, procurava por táxi, se amaldiçoando porque esquecera o guarda-chuva que a mãe recomendara que levasse ao sair de casa naquele dia.

Acordei assustada, saltei da cama rapidamente.

Foi apenas um sonho – disse a mim mesma. Mas as emoções que eu estava sentindo eram reais e válidas.

Pratiquei algumas respirações lentas e profundas para acalmar meu sistema nervoso e telefonei para o hotel. O despertador sobre o criado-mudo marcava quatro da madrugada.

Lá é nove horas – calculei.

  Que aconteceu, mãe?

Contei meu sonho e só. Os bastidores ficam entre nós, queridos leitores.

Gargalhando, ela me garantiu que o passeio a Nápoles fora sem incidentes.

– Deixe de se preocupar comigo, eu estou bem. Que imaginação, hein, mãe?! Por que você não começa a escrever?

E, de novo, com pressa porque estava saindo para Sorrento, se despediu abruptamente.

Aceitei a sugestão. Esta é a primeira das crônicas com que ocupei minhas preocupações nesse ano sabático da Júlia.

LIC

 

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

SHAKESPEARE, HOMEOPATIA E ALOPATIA

 

“Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente.”

Esse aforismo de Shakespeare me fez lembrar de uma lombalgia, a que eu tive naquele mês, uma dor na região lombar que a Medicina classifica como aguda ou crônica dependendo de como aparece e do tempo de duração.

Apareceu inesperadamente. Fui dormir bem, acordei mal. Acreditei que seria de curta duração e encontrei rapidamente a causa. “Tenho que voltar a fazer musculação.” Eu abandonara a academia por contraposição de gostos e gastos entre nós.

Atualmente, pratico corrida lenta e relaxada. Já pratiquei – na minha década dos 30 – corrida de intensidade elevada e rápida, com objetivo de performance, mas sem espírito competitivo. Tenho “preguiça” de superar a mim mesma.

E isso começou quando, por causa do Dr. Cooper, correr se tornou o esporte para todos. Praticar “cooper” podia ser num parque público ou na rua, na hora que se quisesse ou pudesse, com apenas dois pré-requisitos: roupa e tênis adequados. Eram os anos 70, período que ficou conhecido como o do “boom da corrida”.

Depois dessa divagação, justificando a necessidade de exercícios de musculação se eu quiser continuar a correr, volto à lombalgia.

O diagnóstico correto e preciso foi feito pelo meu médico homeopata. O tratamento começou no dia 5 daquele mês com as seguintes prescrições: cinco gotas de Arnica Montana 6CH três vezes ao dia, massagem reparadora com óleo concentrado de arnica, bolsa de água quente de manhã e à noite, fisioterapia, evitar carregar peso, correção postural e nada de corrida.

Vinte e um dias depois, continuava lá, me impedindo de ficar em pé ou sentada por mais que 15 minutos, de me curvar (descobri o quanto faço objetos caírem no chão), de girar o tronco, de dormir confortavelmente, vestir e calçar sapatos etc.

Alguém aguenta dor bem-humorado? Pois nem eu. O mau humor foi chegando, consumindo minha energia mental. Como para esse mau não há remédio, apelei.

Sem consultar meu médico, fui à drogaria do Carlos, me “consultei” com o farmacêutico de plantão sobre qual antinflamatório de venda livre estava em alta popularidade, comprei e iniciei a ingestão imediata segundo a posologia recomendada na bula. Nem li os possíveis efeitos colaterais. O que os olhos não veem, o corpo não sente.

No primeiro dia, nada aconteceu. No segundo dia, leve desconforto ao me curvar (os objetos continuavam escapando das minhas mãos). No terceiro dia, incômodo só ao deitar. No quarto dia, já calçava os sapatos como uma jovem. No quinto dia, ela tinha ido embora e... ganhei uma gastrite.  

Alopatas de plantão, me recomendaram omeprazol. Dessa vez, li a bula online antes de comprar.

Como um bom filho à casa torna, eu voltei. Me curei com chá de espinheira-santa e paciência.

Moral da história: Shakespeare e a Homeopatia são precisos.

LIC

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

PÃO NA CHAPA

 

A cidade de São Paulo não tem igual na quantidade e diversidade de padarias e igrejas. Acredito que há uma diferente para cada um dos 365 dias do ano, ao gosto do freguês e do crédulo.

Se nem todos vão as igrejas com tanta frequência como a uma padaria, talvez seja por uma questão de imediatez, um dos males do nosso século. Tudo queremos para agora e rapidamente.

Muitos acreditam que as igrejas são mais para consumo emergencial, com benefícios abstratos a longo prazo, após um bom período de tempo, esforço e investimento pessoal. As padarias, pontos tradicionais de encontros para os paulistanos, ao contrário, são para consumo imediato todos os dias, todo o dia. Afinal, “comamos e bebamos porque amanhã morreremos”, já disse o profeta. 

Num pacto assinado em guardanapo durante o almoço de Natal daquele ano, meus dois irmãos e eu decidimos nos encontrar a sós – sem esposa, sem marido, sem filhos, sem netos – de dois em dois meses, em uma padaria para o desjejum, logo cedo, assim que suas portas se abrissem. Os notívagos diriam “de madrugada”. Cultivamos ainda hoje um hábito adquirido na casa paterna: dormimos com as galinhas e acordamos com os galos.

“Estamos envelhecendo”, um deles enfatizou para homologar o acordo, peremptoriamente válido e aceito  de imediato. Nós três já chegamos aos setenta.

As padarias nunca se repetem nem os assuntos. Por uma hora e meia, conversamos sem catequisar, crentes sem fanatismos no partido político, no time de futebol, na denominação religiosa que cada um escolheu pelas experiências de vida, genética e hereditariedade. Somos filhos da mesma mãe e do mesmo pai, com 50% do DNA de um e 50% do outro, mas não os mesmos 50%.

Enfim, não vamos lá procurar consenso, tão somente um pão na chapa, uma xícara de café e convívio. Entre uma bocada e um gole, recordarmos tempos passados, questionamos as mazelas da vida, os infortúnios diários, desabafamos desconfortos, festejamos as conquistas, planejamos o futuro, numa pausa do cotidiano que salva um dia difícil.

Satisfeitos, de corpo e alma, tiramos uma selfie, pedimos a conta, voltamos para nosso dia a dia e a vida continua.

Simples assim.

A cada Natal, renovamos esse contrato vitalício até quando Deus quiser.

LIC

ERA UMA VEZ NO NATAL

O bombardeio do “Antes do Natal, tenho que...”, começando cada vez mais cedo, no início de novembro ou até antes, numa crescente antecipação natalina, cria um estado de ansiedade generalizado e, sem perceber, agimos plugados em 220 volts.

Daí, um evento que supostamente deveria gerar calma, se torna caótico com uma quantidade extra de tarefas inesperadas e criadas como estímulo ao consumo. Isso tudo pra quê mesmo? O que ficará disso tudo?

Foi então que lembrei de um tempo sem correria ou stress de última hora. Eu era criança. Eu gostava do Natal.

Na casa dos meus pais, dezembro tinha dias marcados por união familiar. Ao menos por uma semana, vivíamos como numa pensão. Éramos sete, ficávamos em muitos.

Para festejar os dias 24 e 25, tios e primos do interior vinham para se hospedar, se acomodando à noite em colchões espalhados no chão da sala de estar. Os da capital chegavam na tardezinha da véspera.

O prenúncio do início do Natal era a chegada dos engradados com o peru e o leitão, que seriam mortos para a ceia e o almoço. O irmão mais velho do papai enviava da fazenda onde era capataz, como presente da sua ausência. Ele não viria nem parte da sua família por falta de recursos.

No cardápio imutável ano após ano, cabia uma salada de maionese, a massa fresca ao sugo com tomates frescos e maduros que mamãe fazia e o frango caipira que vovó abatia destroncando seu pescoço, uma prática cruel, porém usual e antiga lá aonde ela nascera. Tia Brígida trazia as rabanadas para a sobremesa e um pavê de nozes. Mamãe providenciava a uva niagara rosada, sua preferida. Os adultos bebiam vinho, as crianças, refrigerante.

Na sala de jantar, tinha um pinheiro desmontável de plástico, decorado com bolas vermelhas de vidro, uma ponteira lá no alto e algodão para imitar neve, sem pacotes embaixo dele. A troca de presentes entre os adultos não acontecia. Na manhã do dia 25, lá encontrávamos apenas os que o Papai Noel trouxera para nós, só para nós. 

Um dia, nem sei como foi, deixei de acreditar nele, mas continuei com um sorriso no espelho.

À mesa, comíamos, conversávamos, ríamos. Não recitávamos nenhuma oração nem lembrávamos de Cristo, sem tempo para a Missa do Galo. Sim, Jesus nascera, era ponto pacífico, sem discordância ou contestação entre nós. Estávamos unidos por causa disso. No entanto, não vivíamos o significado místico dessa data nem suas implicações para nós que acreditávamos ser católicos. Em casa, falava-se em Deus apenas na hora de dormir. “A benção, mãe. A benção, pai. A benção, vovó. Deus que mande a santa boa noite.” 

Era assim e, apesar disso, estou certa de que foram dias cristãos.

LIC

 


segunda-feira, 17 de novembro de 2025

PÉ DE VALSA


Sim, herança pode ser destino. Ele é um “pé de valsa” – pensei vendo meu irmão dançar.

Mamãe também era uma exímia dançarina. Ela tinha equilíbrio, requebro, soltura de corpo. Os dois eram a dupla perfeita nas festas, porque papai tinha “dois pés esquerdos”, sem jeito até para um bolero dois pra lá-dois pra cá. Senti isso quando dançamos a valsa dos meus 15 anos. Ele colaborou para que os dedos dos meus pés quadrados, já esmagados num sapato de bico fino, ficassem ainda mais arroxeados.

Lembranças...

Estávamos numa domingueira naquele domingo chuvoso. Como a meteorologia prometia baixas temperaturas ao anoitecer, eu já me comprometera comigo mesma a assistir um filme perfeitamente ajustado ao sofá reclinável, a uma manta e chá de gengibre com limão.

Mas o telefone tocou. Era ele, meu irmão “pé de valsa”.

– O que você vai fazer hoje à noite?

Diante da minha resposta, ele impôs o convite.

– Tem domingueira no Clube Atlético, noite especial para os aniversariantes do mês. Vamos! Para de fugir da realidade, vem pro mundo real e se prepare para ver cenas e figuras bizarras.

Aceitei curiosa.

Com que roupa que eu vou? – me perguntei. Há anos, frequentava apenas lugares onde podia usar roupas atemporais, práticas e descomplicadas, tipo “estilo confortável”, inadequadas a um baile.

Achei que o vestido em veludo azul-marinho com paetê que usara no casamento da minha neta ano passado seria adequado para ocasião e lugar. Calçar o sapato de salto alto que combinava é que foi um martírio. Meus pés mereciam compreensão, pois eu os expandira em largueza com modelos usaflex, tênis e havaianas.

Ensaiei alguns passos do quarto para a sala, da sala para a cozinha como uma equilibrista caminhando sobre arame esticado suspenso no ar. Percebi que dançar seria uma atitude arriscada.

Como evitar acidentes é dever de todos, fui de braço dado com minha cunhada do estacionamento até o salão. À mesa que reservamos, tomei um “chá de cadeira” preventivamente assumido. Proibi meu irmão de me tirar para dançar e recusei dois convites em nome de minha segurança pessoal e do eventual parceiro.

Decidira fruir o evento como plateia.

O salão estava repleto de casais da terceira idade e vários avulsos. Uns dançavam com passos calmos, outros em coreografias acrobáticas, gastando mais energia do que pareciam ter.

Seria difícil determinar a idade de alguns que estavam ali, pois nada envelhece mais que uma pessoa fingir que ainda é jovem. Senão todos, muitos – senhores e senhoras – tentavam encobrir o envelhecimento com indumentos e comportamentos. Inúteis tentativas.

A revolução da longevidade nos garantiu mais anos de vida do que a nossos avós, mas ainda assim estamos condicionados à maldosa entropia (segunda lei da termodinâmica) e à implacável lei da  gravidade: tudo cai por terra.

E esse segundo período de vida adulta vem sendo desperdiçado em tentativas frustradas da terceira idade se vincular a um modelo de sociedade dominada por valores jovens – estar “por dentro”, padrões de beleza irreais, produtividade, ativismo, protagonismo.

Lembro-me de minhas avós, com que convivi desde meu nascimento até a morte delas. Sem olhar para o lado de fora, elas estiveram bem no envelhecer. Foram simplesmente e serenamente idosas.

O espetáculo terminou às 11 da noite. Todos extenuados, os que tinham dançado e os que, como eu, ficaram o tempo todo sentados.

Quando cheguei em casa, me despi, tomei banho, vesti o pijama e, movida pela noitada, resolvi tirar da minha biblioteca “A arte de envelhecer”, do Schopenhauer. Li até de madrugada.

Amanheci com a certeza de que posso envelhecer sem sapatos de salto alto.

LIC

 

 

 

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

ONDE EXISTE AMOR, DEUS AÍ ESTÁ

 

Havia numa cidadezinha um sapateiro chamado Mikail Avdeievitch. Morava num porão cuja única janela dava para a rua, na altura do chão. 

Embora visse apenas os pés de quem passava pela rua, Mikail conhecia todas as pessoas pelos sapatos que usavam. Como já era velho e competente em seu trabalho, era raro um par de botas que não houvesse passado por suas mãos, fosse para um remendo, uma meia-sola ou para colocar um novo cano. Assim, era comum ver passar pela janela uma obra sua.

Mikail estava sempre muito ocupado, pois trabalhava com perfeição, usava material de boa qualidade, não cobrava caro e entregava no prazo prometido. Por isso todos o estimavam e nunca lhe faltava serviço.

Sempre fora um homem bom mas, ao envelhecer, começou a se preocupar com sua alma e queria se aproximar de Deus. Sua mulher tinha morrido quando ele ainda era aprendiz, deixando um filho de três anos. Haviam tido outros filhos antes, mas todos tinham morrido.

Ao se ver só com o menino pensou em mandá-lo para a casa de um tio, na aldeia, mas ponderou: “Será muito triste para o pequeno Karp viver longe de mim. É melhor ficar mesmo comigo”.

Pouco tempo depois, despediu-se do patrão e abriu sua própria oficina. Deus, porém, não velava muito por seus filhos. Quando o que lhe restara se tornou rapaz e começou a ajudá-lo, adoeceu e morreu em uma semana.

Mikail enterrou o filho. A perda feriu-lhe de tal modo o coração que chegou a murmurar contra a justiça divina. Sentia-se tão infeliz que implorava a Deus que lhe tirasse também a vida. 

Censurava o Senhor por não levar a ele, que já era velho, em lugar do filho único tão querido, e deixou de ir à igreja.

Um dia, na época da Páscoa, chegou à casa do sapateiro um conterrâneo seu que há oito anos percorria o mundo como peregrino. Conversaram muito tempo e Mikail se queixou amargamente da sua desgraça.

"Perdi o desejo de viver, agora só espero a morte. Peço a Deus que me leve, pois não tenho mais ilusões na vida."

"Não fale assim, Mikail. Os homens não devem julgar a vontade do Senhor, pois suas razões estão acima do nosso entendimento. Se Ele decidiu que seu filho morresse e você vivesse, tem que ser assim. Você se desespera porque só quer viver para sua própria felicidade."

"E para que viver, se não para isso?" - perguntou o sapateiro.

"É preciso viver para Deus. É ele quem dá a vida e para ele devemos viver. Quando entender isso, seu sofrimento terminará e você suportará tudo com paciência e resignação."

Mikail ficou calado por um momento, e disse:

"E como se vive para Deus?"

"Como Cristo ensinou. Você sabe ler? Pode aprender nos Evangelhos. Na Sagrada Escritura você encontrará resposta para todas as perguntas."

Essas palavras calaram fundo no coração de Mikail.

No mesmo dia comprou um exemplar do Novo Testamento, impresso em letras bem grandes, e começou a ler.

Pretendia pegá-lo somente nos dias de folga, mas o texto lhe trazia tal consolo à alma que foi adquirindo o hábito de ler algumas páginas todos os dias. Às vezes, se entretinha de tal modo que só deixava o livro quando o óleo da lâmpada terminava.

Lia todas as noites. À medida que progredia na leitura, ia compreendendo com maior clareza o que Deus exigia, como viver para Deus, e a alegria penetrava docemente em sua alma.

Acostumado a ir se deitar gemendo e suspirando com a lembrança dos filhos, agora dizia:

"Glória a Deus, glória ao Senhor, pois essa foi a sua vontade."

A vida do sapateiro transformou-se completamente. Antes, nos dias de festa, ia para a taberna tomar chá e, por vezes, um gole de vodca com os amigos. Nessas ocasiões saía da taberna não propriamente embriagado, mas um tanto eufórico, e dizia bobagens, chegava a insultar quem encontrava no caminho.

Agora tudo mudara. Sua vida transcorria em harmonia e paz. Punha-se a trabalhar ao amanhecer e, terminado o dia, colocava a lâmpada sobre a mesa, tirava o livro da prateleira e sentava-se para ler. Quanto mais lia, melhor compreendia e uma suave serenidade envolvia-lhe a alma.

Uma noite, estendeu a leitura até bem tarde e, chegando ao capítulo VI do Evangelho de São Lucas, encontrou os seguintes versículos:

“Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra. Ao que te tirar o manto, não o impeças de levar também a túnica. Dá a todo aquele que te pede; e ao que leva o que é teu, não lhe tornes a pedir. O que quereis que vos façam os homens, fazei-o também a eles.”

A seguir, leu que o Senhor disse:

“Por que me chamais: Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos digo? Todo aquele que vem a mim, que ouve minhas palavras e as põe em prática, eu vos mostrarei a quem ele é semelhante. É semelhante a um homem que, edificando uma casa, cavou profundamente e pôs os alicerces sobre a rocha. Vindo uma inundação, investiu a torrente contra aquela casa e não pôde movê-la, porque estava bem edificada. Mas o que ouve e não pratica é semelhante a um homem que edificou a sua casa sobre a terra, sem fundamentos. Investiu a torrente contra ela e logo caiu, e foi grande a ruína daquela casa.”

Ao ler essas palavras, seu coração se inundou de alegria. Deixou os óculos sobre o livro e apoiou os cotovelos na mesa, imerso em reflexão. Comparou seus próprios atos a essas palavras, e disse:

"Minha casa está fundada sobre rocha ou sobre areia? Seria bom se estivesse apoiada na rocha. A felicidade nos domina quando estamos em paz com a consciência, procedendo como Deus quer. Quando nos esquecemos de Deus podemos cair outra vez em pecado. Continuarei como estou, pois sinto que é bom. Que Deus me proteja!"

Mergulhado nesses pensamentos, resolveu ir se deitar. Mas relutava em largar o livro e começou o sétimo capítulo. Leu a história do centurião, a do filho da viúva e a resposta de Jesus aos discípulos de São João. 

Chegou ao trecho em que o rico fariseu convidou Jesus para ir à sua casa, onde a pecadora ungiu-lhe os pés e os lavou com suas lágrimas e Ele perdoou-lhe os pecados, e leu ainda:

“E voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa, não me deste água para os pés; ela, com as suas lágrimas me banhou os pés, e enxugou-os com os cabelos. Não me deste o ósculo da paz; porém ela, desde que entrou, não cessou de beijar os meus pés. Não ungiste minha cabeça com bálsamo, porém esta ungiu com bálsamo os meus pés.”

Ao ler esse versículo, Mikail pensou: “Não lhe deu água para os pés, não o beijou, não ungiu a cabeça dele com bálsamo...” Tornou a tirar os óculos, colocou-os sobre o livro e voltou às reflexões. 

“Aquele fariseu deve ter sido como eu. Ele também só pensava em si mesmo - tomar o seu chá, estar agasalhado, confortável, nem um pensamento para o hóspede. Cuidava de sua vida e nem pensava no conforto do convidado. E quem era esse convidado? O próprio Deus! Se Ele viesse me visitar, eu faria a mesma coisa?”

Mikail apoiou a cabeça nos braços cruzados sobre a mesa e, sem se dar conta, adormeceu.

"Mikail!"- disse uma voz de repente, sussurrando em seu ouvido. Despertou assustado.

"Quem é?" - perguntou.

Olhou em volta, olhou para a porta, não viu ninguém. A voz tornou a chamar, desta vez com mais clareza.

"Mikail, Mikail! Olha para a rua amanhã, pois eu virei."

Mikail levantou-se da cadeira, esfregando os olhos, sem saber se ouvira as palavras num sonho ou acordado. Apagou a lâmpada e foi dormir.

No dia seguinte, levantou-se antes do amanhecer, fez suas orações e acendeu o fogo para preparar a sopa de repolho e o mingau. Mantendo acesa a chama do samovar, vestiu o avental e sentou-se junto à janela para trabalhar.

Não conseguia afastar o pensamento do que acontecera na véspera, sem saber se fora uma alucinação ou se alguém falara realmente.

"São coisas que acontecem na vida" - disse a si mesmo.

Continuava a trabalhar, espiando de vez em quando pela janela e, quando passavam botas desconhecidas, levantava-se para ver o rosto da pessoa.

Conto de León Tolstói, escrito em 1885.

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quarta-feira, 15 de outubro de 2025

TERESA DE CEPEDA Y DE AHUMADA


 

Teresa de Cepeda y de Ahumada (nasceu em Ávila em 1515) guiada por Deus por meio de colóquios místicos e por seu colaborador e conselheiro espiritual São João da Cruz (reformador da parte masculina da ordem carmelita), empreendeu aos quarenta anos uma missão que tem algo de incrível para uma mulher de saúde delicada como a sua: do mosteiro de São José, fora dos muros de Ávila, primeiro convento do Carmelo por ela reformado, partiu, carregada pelos tesouros do seu Castelo Interior, para todas as direções da Espanha.

Levou a termo numerosas fundações, suscitando também muitos ressentimentos, até a ponto de lhe ser temporariamente revogada a licença de reformar outros conventos ou de fundar novas casas.

Mestra de místicos e diretora espiritual, mantém correspondência epistolar com o próprio rei Filipe II da Espanha e com as personagens mais ilustres da época. Como, no entanto, era mulher prática, ocupava-se das mínimas coisas do convento e não descuidava da parte econômica, pois dizia sabiamente: “Teresa sem a graça de Deus é pobre mulher, com a graça de Deus, uma força; com a graça de Deus e muito dinheiro, uma potência”.

Teresa escreveu, por solicitação do confessor, a história da sua vida, um livro de confissões.

No prefácio observa: "Eu quisera que, como me mandaram escrever o meu modo de oração e as graças que me deu o Senhor, me concedessem também de contar minuciosamente e com clareza os meus grandes pecados’’.

É a história de uma alma que apaixonadamente luta para subir, sem no começo conseguir.

Por isso, do ponto de vista humano, Teresa aparece mais próxima de nós, dando-nos a imagem de criatura feita de carne e osso, ao contrário da representação berniniana, em que Santa Teresa nos aparece excessivamente lânguida.

Desde a meninice manifestou temperamento exuberante (aos sete anos fugira de casa para procurar o martírio na África) e tendências antagônicas à vida mística e à atividade prática, organizadora.

Duas vezes esteve gravemente enferma.

Durante a doença começou a viver algumas experiências místicas que transformaram profundamente a sua vida interior, dando-lhe a percepção da presença de Deus e a experiência de fenômenos místicos descritos por ela mais tarde nos seus livros Caminho da Perfeição, Pensamentos sobre o amor de Deus, Castelo Interior.

Morreu em Alba de Tormes na noite de 15 de outubro de 1582 e em 1622 foi proclamada santa. Paulo VI, a 27 de setembro de 1970, reconheceu-lhe o título de Doutora da Igreja.

Extraído do livro: Um santo para cada dia, de Mario Sgarbossa e Luigi Giovannini.

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

QUE SABEMOS NÓS?

Foi em julho deste ano. Para comemorar meu aniversário, planejei uma viagem solo à Itália. Com acesso fácil a mares, a parte sul do “país da bota” era o lugar ideal. Banhada pelo Adriático, o Jônico e o Tirreno, o verão fica suave por lá. Meu plano era explorar a Costa Amalfitana.

Com tudo planejado até o último detalhe, embarquei para Roma, ponto de partida para a conexão ao aeroporto Capodichino, em Nápoles, a primeira parada do roteiro. As forças que favorecem os metódicos, focados e previdentes também favoreceriam minha estadia em Nápoles, uma cidade com a péssima reputação de ser uma das menos seguras da Itália. Já estivera por lá anos atrás, sabia disso, e o ChatGPT confirmou esse cenário.

Sim, recorri à inteligência artificial para estar a salvo de perigos e intempéries com zero probabilidades de ocorrências nefastas. Baixei o aplicativo de fonte confiável que me garantiu respostas com informações sobre clima e segurança claras, pontuais, assertivas sem delongas.

Ao religar meu celular assim que aterrissamos, recebi de Enzo Santoro, o motorista que eu contratara, a confirmação da corrida à Residenza Neri, em Posillipo.

O ChatGTP comentara sobre o trânsito caótico de Nápoles, mas ficou muito longe da realidade dos motoristas napolitanos. Eles são “loucos”, ousados, imprudentes, indisciplinados. Circulam pelas ruas, mesmo as mais estreitas, em alta velocidade.

Enzo, um jovem napolitano, seguia o padrão. Por 15 km, dirigiu como se estivesse testando uma Ferrari em pista de corrida. Minha imaginação, por natureza ilimitada, começou a funcionar imediatamente: invalidez permanente ou morte imediata após um acidente de capotamento.  

Grazie a Dio, chegamos ilesos ao hotel. Ainda atarantado, praguejei contra a inteligência limitada do ChatGPT quanto a eventos aleatórios, eventuais, fortuitos.

Registrei minha chegada, recebi a chave do quarto e dispensei o jantar. Precisava apenas de um banho e o alívio de uma cama. Amanhecia quando comecei a dormir. Acordei para o almoço, com o estômago roncando.  

O dia estava quente e úmido. Na necessidade de sentir que caminhava sobre solo firme num bairro seguro, saí para caminhar. Posillipo é uma área residencial nobre, tranquila, acima do caótico centro histórico napolitano.

Mas fui surpreendido pela velocidade mais uma vez. 

 Ehi, attento!

Ao tentar atravessar a rua, quase fui atropelado por uma Vespa. Pulei para a calçada e me encostei no muro da residência mais próxima. Ao desviar de mim, a moto colidiu com o carro da frente e o motociclista foi arremessado para longe. Ouvi o barulho metálico do choque.

O trânsito parou e muitas pessoas acorreram ao local. Também me aproximei e reconheci o jovem napolitano que me trouxera do aeroporto. “È morto!”, diziam. Não esperei para ver confirmada a sentença.

À noite, peguei o trem na estação central de Nápoles para seguir viagem.  

Muitas vezes ouvi céticos usarem a palavra “improvável”, mas aprendi que muito do que consideramos impossível acontece todo dia. Nem a realidade nem o ChatGPT dão conta do inesperado.

LIC

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

UMA CASA REAL

 

“Ainda não.” Assim Mateo respondia quando lhe sugeriam uma visita àquele santuário afirmando ser o maior do mundo. Mesmo crente em Deus, ele não sofria de religião. Na época certa, foi levado à igreja e não se interessou por nada daquilo. Mas quando as coisas não iam bem, esquecia que era incrédulo e rezava em segredo.

Naquele dia, Mateo esteve lá por uma boa razão e por uma razão verdadeira.

Isabel, de quem estava apaixonado, o convidara. E, ultimamente, inquietações o impulsionavam a se envolver com o além do palpável. Cansara de perguntar aos seus botões sobre a irracionalidade da vida.

Isabel garantiu que seria uma visita monitorada, afirmando que no templo, a começar da estrutura e dos tijolos, tudo tinha uma razão de ser: imagens, formas e formatos, contornos, cores e tons, painéis, vitrais e mosaicos. “Nem um só prego foi colocado sem um sentido teológico, litúrgico e mistagógico. Muitos vêm com um fundo de bom sentimento e de interesse pessoal, em busca de graças, e nem lhes prestam atenção”, ela comentou.

Chegaram ao Santuário a tempo de passar diante da pequena imagem negra. Retirada das águas do rio Paraíba do Sul por três pescadores, ela realizou um primeiro milagre, o da pesca abundante. “E continua realizando eventos extraordinários; depois vou levar você até a Sala das Promessas”, Isabel prometeu.

“Tia Lavínia fez muitas”, Mateo lembrou. “Pela saúde do marido tísico, por um bom casamento para a filha, por um emprego para o filho alcoólatra, por conflitos familiares etc.”

Na hora agendada, encontraram Alice, a guia. “Vamos entrar pela nave norte através desta majestosa porta em bronze, a Porta Santa, aberta por ser um ano jubilar”.  Mateo não fazia a mínima ideia do que isso significava. Nem sequer se atreveu a perguntar diante da reverência e silêncio com que Alice os fez atravessar o portal.

Durante hora e meia, Alice apresentou em minúcias a arte e a arquitetura da área central, um espaço sagrado sem janelas e tantas portas, onde grandes colunas sustentam, envolvem e protegem o altar principal coroado pela Cúpula Central.

Apontando para o alto, ela continuou. “Lá está a Árvore da Vida, a que brotou do pequeno grão de mostarda, onde as aves vêm fazer seus ninhos. Lembram da parábola?”, ela perguntou. Mateo, ao ouvir “mostarda”, só lhe veio ao pensamento o tempero que colocava no hot-dog. Tomado de assalto por resquícios da sua herança religiosa, alguém dentro dele fez um sermão e o censurou.

“É de lá, a oito metros de altura, que desce a Cruz do Nada, com o corpo vazado de quem é a centralidade do mundo ocidental cristão, o Messias, Cristo Jesus. Observada dos corredores laterais, ela desaparece, remetendo à passagem bíblica do enigma da fé, acreditar sem ver”, Alice acrescentou.

“Sim, como minha mãe”, Mateo recordou. “Ela dizia que a ignorância humana não tem limites, mas a fé firme e certa em Deus e sua sapiência oferecem respostas tranquilizadoras sobre a existência, a vida, a morte e nosso lugar no universo.”  

Foi então que Alice pediu que inclinassem a cabeça e baixassem o olhar. Minando do altar, o desenho em ziguezague de ondas de água em movimento “escorria” sob seus pés, aumentando progressivamente até um metro e meio pelo granito das paredes, fluindo pelas arcadas externas. “Até o piso tem teologia. Essas águas lembram a visão do profeta Ezequiel”, Isabel sussurrou.

Mateo ignorava a que ela se referia. Só lembrou que Ezequiel era o nome do zelador do seu prédio. Mais uma vez alguém dentro dele fez um sermão e o censurou.

Com o desejo de conferir onde aquelas ondas cravadas no chão o levariam, Mateo se afastou de Isabel e, já no exterior da Basílica, seguiu-as.

Chegou ao ponto de partida, diante da pequena imagem negra. Um jovem, com as mãos unidas e os olhos voltados para cima, rezava ajoelhado diante do nicho. Mateo se deteve e, curioso, apurou os ouvidos para escutar a prece que ele sussurrava a Maria. “Concedei-me que eu volte a ser irmão do vosso menino.”

Impactado pela súplica e sem se dar conta, Mateo repetiu o que ouvira, de joelhos.

Milagre? Quando não se tem fé, não se vê os milagres.

LIC


 

terça-feira, 29 de julho de 2025

ÀS DUAS HORAS DA TARDE DE DOMINGO

 

 

Diante da folha em branco, caneta em punho, minha atenção foi despertada. O relógio do campanário marcou o tempo presente, o que era naquele instante. Duas horas da tarde de domingo.

Minha memória despertou. Foi de repente, como ela surge, desencadeada pelo som do piano da vizinha que insistia em tocar uma escala com agilidade e precisão. Trouxe um outro domingo às duas horas da tarde.

Morávamos em um sobrado geminado que, até onde posso lembrar, era herança do meu avô materno.

Um portão grande servia para a entrada de carros. O menor, para entrarmos. O restante era muro alto. Da rua para o quintal, havia um jardim sem flores e uma varanda imediata à sala de estar decorada com um sofá de quatro lugares e uma poltrona, tudo em courvin marrom, encostados na parede, de frente para a televisão. A mesinha de centro diariamente era ocupada pelo jornal que meu pai espalhava depois de lido.   

A sala de jantar estava entulhada com móveis antigos – um buffet, uma cristaleira, o barzinho e uma mesa com seis cadeiras em pau-marfim descaracterizado pelas inúmeras vezes que minha mãe lixara e envernizara a madeira. Sobre essa mesa, colocaram o caixão com o corpo da minha avó materna e lá fizemos seu velório. 

Uma porta dava acesso à copa e cozinha com tudo, absolutamente tudo – mesa, cadeiras, armários – revestido de fórmica vermelha brilhante. A geladeira também era vermelha, tendência pop dos anos 70.

Seguindo em direção ao quintal, tinha o quarto de empregada e um banheiro pequeno que todos usavam durante o dia.

A porta da cozinha se abria para o quintal com piso de cacos de cerâmica. Um canteiro estreito, onde cresciam trepadeiras – uma videira, um pé de maracujá e um de chuchu, ladeava a parede que separava a nossa da casa do vizinho. De lá saiam as formigas e os tatus bolinhas que meu irmão pegava e torturava de todos os modos que se pode conceber e por tempo sem fim.

No andar superior, para onde se chegava por uma escada de dezesseis degraus, que eu repetidamente contava tantas fossem as vezes que subisse ou descesse, tinha um banheiro com chuveiro e banheira que ninguém usava – tomávamos banho de pé dentro dela – três quartos, uma sacada aberta para a rua da frente e outra para os fundos, para o quintal.

A casa ressonava. Meus pais cochilavam no sofá, segundo o costume no domingo, e meu irmão saíra para algum lugar onde havia amigos e diversão.

Eu estava na cozinha, lavando a louça do almoço, panelas, travessas, pratos, talheres espalhados sobre a pia e o fogão. Minha mãe fizera o almoço às pressas entre as idas e vindas da feira nas ruas próximas, sem tempo para limpar o que sujava.

Tocaram a campainha. Meu pai acordou e foi atender aquele homem corpulento vestido com aprumo, de rosto e nariz franzidos que faziam pensar num buldogue. Era um agiota, soube no dia seguinte.

Notei que meu pai, acabrunhado, entrou e, à indagação da mamãe, disse que viriam buscar o piano. A dívida crescera e ficara impossível de pagar.

Sim, antes da televisão, existira aquele piano na nossa sala de estar.

LIC