No dia 10 de agosto de 20..., exatamente sete anos depois do início do meu trabalho como governanta na casa dos Von Mayer, acordei às 5 horas da manhã para preparar o desjejum da família.
Os Von Mayer, descendentes de austríacos de Salzburgo, tinham hábitos precisos e rotineiros para seu dia a dia. De segunda a sexta-feira, dali duas horas, todos estariam acordados, sentados à mesa da copa, se servindo de pães crocantes, acompanhados de geleia, queijo e presunto, ovos e uma boa xícara de café para o casal e chocolate morno para as crianças.
O ônibus escolar passaria às 7h30 para levar Katharina e Gustavo ao colégio e, pontualmente às 8h, dr. Alberto abriria seu consultório na sala do andar térreo do sobrado. Dona Astrid se encerrava em seu ateliê, entregue ao que ela dizia ser sua única paixão: pintar. Talvez houvesse nesse isolamento a busca por uma necessidade de descontração.
Depois de lavar a louça e colocar em ordem a cozinha, subi para arrumar os dormitórios. Já eram 9h. Como não era comum encontrar fechada a porta do quarto do casal, parei indecisa se deveria avançar.
“Não, não devo”, decidi, principalmente porque comecei a escutar sons confusos, murmúrios, vozes abafadas, ruídos contínuos que me pareceram soluços contidos. Resolvi mudar a programação de limpeza daquele dia. “Vou começar pela biblioteca e lavabo.”
No instante em que volvia meu corpo na direção da escada que me levaria ao primeiro piso, estanquei bruscamente ao ouvir o estampido de um tiro. Segundos depois, dr. Alberto abriu a porta. Com um olhar petrificado, inexpressivo, as narinas dilatadas e os dentes cerrados, repetia gargalhando estridentemente, incontrolável: “Astrid está morta, eu a matei”. Apontando o revólver para a cabeça, entre os olhos, se suicidou.
Eram 9h30 da manhã.
LIC
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