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sábado, 6 de dezembro de 2025

O QUE REALMENTE IMPORTA

Naquele dia, logo muito cedo para mim que estava no Brasil, minha filha me telefonou da Itália para contar o que fizera naquele primeiro mês do seu ano sabático.

Nossa conversa durou pouquíssimos minutos porque o telefone do seu quarto tocou. O guia que ela contratara para uma excursão a Nápoles estava à espera no saguão do hotel.

“Bom, acho que vou indo, mãe. Tchau.”

Depois de tanto tempo distantes, eu esperava uma longa conversa repleta de detalhes. Essa despedida abrupta foi a deixa para eu dizer à Júlia o que eu disse, e de pronto.

Me sentindo atropelada e preterida pela insignificância de um passeio em Nápoles, o sabor amargo do ciúme fez meu ego se dilatar, autenticado por uma atitude insegura, confesso, de mãe.

Sim, sua filha está crescendo e se afastando escutei alguém “lá dentro” me dizendo assim que deliguei o telefone.

Abespinhada, fui caminhar. Dizem que caminhar tem efeito calmante, ajuda a processar pensamentos, clareia os bastidores da mente.

Trinta e cinco minutos foram suficientes para suar e me arrepender. Não, não de caminhar. De ter dito o que eu disse no calor da hora. Não no calor da caminhada, mas no calor do momento da despedida.

Chegando em casa, peguei o celular com a intenção de chamá-la para me explicar. Não atendeu.

Mais uma vez, naquele dia, meu ego se aprumou irritado. Tornei a validá-lo.

“Deixa estar, um dia ela vai me dar razão.”

Procurando esquecer o incidente, toquei o restante do dia como de costume, guardando nos porões do inconsciente o incidente daquela manhã.

A noite chegou e deixou sua marca, um pesadelo vívido e perturbador.

Júlia caminhava sozinha por uma cidade pichada em meio a um trânsito caótico. Carros circulavam alucinadamente por vias estreitas de mão dupla. Num beco sem saída, uma rua deserta apenas iluminada pelo letreiro de néon de uma danceteria que piscava interruptamente se destacava uma palavra em vermelho: “Napoli”. Um vulto sombrio envolto numa capa negra guardava a entrada. Júlia correu para lá, encharcada da chuva que começara repentinamente. Relâmpagos, trovões, um vento intenso, fez que ela se abrigasse sob o toldo daquele lugar. Ao mesmo tempo, olhando para todos os lados, procurava por táxi, se amaldiçoando porque esquecera o guarda-chuva que a mãe recomendara que levasse ao sair de casa naquele dia.

Acordei assustada, saltei da cama rapidamente.

Foi apenas um sonho – disse a mim mesma. Mas as emoções que eu estava sentindo eram reais e válidas.

Pratiquei algumas respirações lentas e profundas para acalmar meu sistema nervoso e telefonei para o hotel. O despertador sobre o criado-mudo marcava quatro da madrugada.

Lá é nove horas – calculei.

  Que aconteceu, mãe?

Contei meu sonho e só. Os bastidores ficam entre nós, queridos leitores.

Gargalhando, ela me garantiu que o passeio a Nápoles fora sem incidentes.

– Deixe de se preocupar comigo, eu estou bem. Que imaginação, hein, mãe?! Por que você não começa a escrever?

E, de novo, com pressa porque estava saindo para Sorrento, se despediu abruptamente.

Aceitei a sugestão. Esta é a primeira das crônicas com que ocupei minhas preocupações nesse ano sabático da Júlia.

LIC

 

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

QUE SABEMOS NÓS?

Foi em julho deste ano. Para comemorar meu aniversário, planejei uma viagem solo à Itália. Com acesso fácil a mares, a parte sul do “país da bota” era o lugar ideal. Banhada pelo Adriático, o Jônico e o Tirreno, o verão fica suave por lá. Meu plano era explorar a Costa Amalfitana.

Com tudo planejado até o último detalhe, embarquei para Roma, ponto de partida para a conexão ao aeroporto Capodichino, em Nápoles, a primeira parada do roteiro. As forças que favorecem os metódicos, focados e previdentes também favoreceriam minha estadia em Nápoles, uma cidade com a péssima reputação de ser uma das menos seguras da Itália. Já estivera por lá anos atrás, sabia disso, e o ChatGPT confirmou esse cenário.

Sim, recorri à inteligência artificial para estar a salvo de perigos e intempéries com zero probabilidades de ocorrências nefastas. Baixei o aplicativo de fonte confiável que me garantiu respostas com informações sobre clima e segurança claras, pontuais, assertivas sem delongas.

Ao religar meu celular assim que aterrissamos, recebi de Enzo Santoro, o motorista que eu contratara, a confirmação da corrida à Residenza Neri, em Posillipo.

O ChatGTP comentara sobre o trânsito caótico de Nápoles, mas ficou muito longe da realidade dos motoristas napolitanos. Eles são “loucos”, ousados, imprudentes, indisciplinados. Circulam pelas ruas, mesmo as mais estreitas, em alta velocidade.

Enzo, um jovem napolitano, seguia o padrão. Por 15 km, dirigiu como se estivesse testando uma Ferrari em pista de corrida. Minha imaginação, por natureza ilimitada, começou a funcionar imediatamente: invalidez permanente ou morte imediata após um acidente de capotamento.  

Grazie a Dio, chegamos ilesos ao hotel. Ainda atarantado, praguejei contra a inteligência limitada do ChatGPT quanto a eventos aleatórios, eventuais, fortuitos.

Registrei minha chegada, recebi a chave do quarto e dispensei o jantar. Precisava apenas de um banho e o alívio de uma cama. Amanhecia quando comecei a dormir. Acordei para o almoço, com o estômago roncando.  

O dia estava quente e úmido. Na necessidade de sentir que caminhava sobre solo firme num bairro seguro, saí para caminhar. Posillipo é uma área residencial nobre, tranquila, acima do caótico centro histórico napolitano.

Mas fui surpreendido pela velocidade mais uma vez. 

 Ehi, attento!

Ao tentar atravessar a rua, quase fui atropelado por uma Vespa. Pulei para a calçada e me encostei no muro da residência mais próxima. Ao desviar de mim, a moto colidiu com o carro da frente e o motociclista foi arremessado para longe. Ouvi o barulho metálico do choque.

O trânsito parou e muitas pessoas acorreram ao local. Também me aproximei e reconheci o jovem napolitano que me trouxera do aeroporto. “È morto!”, diziam. Não esperei para ver confirmada a sentença.

À noite, peguei o trem na estação central de Nápoles para seguir viagem.  

Muitas vezes ouvi céticos usarem a palavra “improvável”, mas aprendi que muito do que consideramos impossível acontece todo dia. Nem a realidade nem o ChatGPT dão conta do inesperado.

LIC