Desde a manhã bem cedo daquele sábado 25 de abril, o tempo e
a temperatura favoreciam meu desejo de isolamento e de contato com a Natureza.
Eu estava tão exausto do trabalho, insatisfeito comigo mesmo
ao lembrar como era minha rotina há mais de cinco anos, que aceitei o convite de uma amiga para passar
o dia distante do mundo urbano.
O lugar escolhido era um refúgio de silêncio, "onde tudo era bom, onde tudo funcionava em perfeita paz e equilíbrio”, como no princípio. Formigas carregando seus fardos, pássaros em voos frenéticos e agitados, minhocas se alimentando, escavando e excretando, aranhas construindo armadilhas para capturar presas, impulsionados pelo instinto cego de sobrevivência.
Sentada em um dos bancos de madeira espalhados pelo pátio daquela casa de
retiro, eu meditava o requinte do cosmos diante de um jatobá centenário.
De maneira inesperada, um vento tempestuoso cortou o ar em
turbilhão, fazendo voar em abundância as folhas envelhecidas daquela árvore, que
cobrearam o chão de cimento batido.
A violência dessa manifestação da Natureza me despertou um
sentimento profundo, como se houvesse uma intervenção divina por trás desse
acontecimento. Foi quando me pareceu ouvir uma voz dizendo “eis que faço novas
todas a coisas”.
Olhei ao redor procurando quem seria. Ninguém à direita,
ninguém à esquerda nem à frente nem atrás. Àquela hora todos tinham se recolhido
para o almoço. Eu me demorara guardando meus pertences.
Mas, como Elias no monte Horebe, aguardei mais instruções. Uns
minutos imóvel à espera aumentou meu foco no momento presente e meu horizonte visual.
Lá adiante, estacado na calçada em frente do portão de ferro
fundido, estava um homem com a pele enegrecida pela sujidade do mundo, sob uma manta de pobre, daquelas que cobrem a cabeça e descobrem os pés, segurando uma sacola vazia de supermercado.
Seus olhos cinzentos, que estavam voltados para mim de forma
fixa, me incomodaram e me pus prevenida. Foi quando algo oportuno alterou minha
visão e despertou meu estômago: o sino da capela marcou o meio-dia.
“Ele deve estar com fome e eu também.”
Desviei meu olhar, lhe dei as costas e fui para o refeitório.
“Deve ser um pedinte da casa; logo alguém virá lhe trazer um prato de comida.”
Não avisei aos funcionários sobre sua presença nem comentei
com ninguém, ainda mais porque aquele era um retiro de silêncio onde até
sussurros eram proibidos. Então me sentei sozinha e escolhi uma mesa defronte a
uma janela. Caprichei na hora de montar meu prato e na porção da sobremesa.
Ao me sentar, através daquela janela, eu o vi, aquela
presença estranha, ainda do lado de fora do portão de ferro.
Um tal sentimento de aborrecimento tomou conta de mim que amargou
o sabor da primeira garfada. Eu continuava do lado de dentro do portão de ferro.
Seria isso mais uma intromissão divina?
Devolvi a sobremesa.
LIC
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