A cidade de São
Paulo não tem igual na quantidade e diversidade de padarias e igrejas. Acredito
que há uma diferente para cada um dos 365 dias do ano, ao gosto do freguês e do
crédulo.
Se
nem todos vão as
igrejas com tanta frequência como a uma padaria, talvez seja por uma questão de
imediatez, um dos males do nosso século. Tudo queremos para agora e
rapidamente.
Muitos acreditam que as igrejas são mais para consumo emergencial, com benefícios abstratos a longo prazo, após um bom período de tempo, esforço e investimento pessoal. As padarias, pontos tradicionais de encontros para os paulistanos, ao contrário, são para consumo imediato todos os dias, todo o dia. Afinal, “comamos e bebamos porque amanhã morreremos”, já disse o profeta.
Num
pacto assinado em guardanapo durante o almoço de Natal daquele ano, meus dois
irmãos e eu decidimos nos encontrar a sós – sem esposa, sem marido, sem filhos,
sem netos – de dois em dois meses, em uma padaria para o desjejum, logo cedo,
assim que suas portas se abrissem. Os notívagos diriam “de madrugada”. Cultivamos
ainda hoje um hábito adquirido na casa paterna: dormimos com as galinhas e
acordamos com os galos.
“Estamos
envelhecendo”, um deles enfatizou
para homologar o acordo, peremptoriamente válido e aceito de imediato. Nós três já chegamos aos
setenta.
As
padarias nunca se repetem nem os assuntos. Por uma hora e meia, conversamos sem
catequisar, crentes sem fanatismos no partido político, no time de futebol, na denominação religiosa
que cada um escolheu pelas experiências de vida, genética e hereditariedade. Somos filhos da mesma mãe
e do mesmo pai, com 50% do DNA de um e 50% do outro, mas não os mesmos 50%.
Enfim,
não vamos lá procurar consenso, tão somente um pão na chapa, uma xícara de café e convívio. Entre
uma bocada e um gole, recordarmos tempos passados, questionamos as mazelas da vida, os infortúnios diários, desabafamos desconfortos, festejamos as conquistas, planejamos o futuro,
numa pausa do cotidiano que salva um dia difícil.
Satisfeitos, de corpo e alma, tiramos uma selfie, pedimos a conta, voltamos para nosso dia a dia e a vida continua.
A cada Natal, renovamos esse contrato vitalício até quando Deus quiser.
LIC
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigada por sua visita. Para preservar a integridade deste Blog, todas as mensagens serão lidas antes de serem publicadas.
Se você gostou do conteúdo deste Blog, compartilhe.