segunda-feira, 24 de novembro de 2025

PÃO NA CHAPA

 

A cidade de São Paulo não tem igual na quantidade e diversidade de padarias e igrejas. Acredito que há uma diferente para cada um dos 365 dias do ano, ao gosto do freguês e do crédulo.

Se nem todos vão as igrejas com tanta frequência como a uma padaria, talvez seja por uma questão de imediatez, um dos males do nosso século. Tudo queremos para agora e rapidamente.

Muitos acreditam que as igrejas são mais para consumo emergencial, com benefícios abstratos a longo prazo, após um bom período de tempo, esforço e investimento pessoal. As padarias, pontos tradicionais de encontros para os paulistanos, ao contrário, são para consumo imediato todos os dias, todo o dia. Afinal, “comamos e bebamos porque amanhã morreremos”, já disse o profeta. 

Num pacto assinado em guardanapo durante o almoço de Natal daquele ano, meus dois irmãos e eu decidimos nos encontrar a sós – sem esposa, sem marido, sem filhos, sem netos – de dois em dois meses, em uma padaria para o desjejum, logo cedo, assim que suas portas se abrissem. Os notívagos diriam “de madrugada”. Cultivamos ainda hoje um hábito adquirido na casa paterna: dormimos com as galinhas e acordamos com os galos.

“Estamos envelhecendo”, um deles enfatizou para homologar o acordo, peremptoriamente válido e aceito  de imediato. Nós três já chegamos aos setenta.

As padarias nunca se repetem nem os assuntos. Por uma hora e meia, conversamos sem catequisar, crentes sem fanatismos no partido político, no time de futebol, na denominação religiosa que cada um escolheu pelas experiências de vida, genética e hereditariedade. Somos filhos da mesma mãe e do mesmo pai, com 50% do DNA de um e 50% do outro, mas não os mesmos 50%.

Enfim, não vamos lá procurar consenso, tão somente um pão na chapa, uma xícara de café e convívio. Entre uma bocada e um gole, recordarmos tempos passados, questionamos as mazelas da vida, os infortúnios diários, desabafamos desconfortos, festejamos as conquistas, planejamos o futuro, numa pausa do cotidiano que salva um dia difícil.

Satisfeitos, de corpo e alma, tiramos uma selfie, pedimos a conta, voltamos para nosso dia a dia e a vida continua.

Simples assim.

A cada Natal, renovamos esse contrato vitalício até quando Deus quiser.

LIC

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