O bombardeio do “Antes
do Natal, tenho que...”, começando cada vez mais cedo, no início de novembro ou
até antes, numa crescente antecipação natalina, cria um estado de ansiedade
generalizado e, sem perceber, agimos plugados em 220 volts.
Daí, um evento que supostamente
deveria gerar calma, se torna caótico com uma quantidade extra de tarefas
inesperadas e criadas como estímulo ao consumo. Isso tudo pra quê mesmo? O que
ficará disso tudo?
Foi então que lembrei
de um tempo sem correria ou stress de última hora. Eu era criança. Eu gostava do Natal.
Na casa dos meus pais,
dezembro tinha dias marcados por união familiar. Ao menos por uma semana,
vivíamos como numa pensão. Éramos sete, ficávamos em muitos.
Para festejar os dias
24 e 25, tios e primos do interior vinham para se hospedar, se acomodando à
noite em colchões espalhados no chão da sala de estar. Os da capital chegavam na
tardezinha da véspera.
O prenúncio do início
do Natal era a chegada dos engradados com o peru e o leitão, que seriam mortos
para a ceia e o almoço. O irmão mais velho do papai enviava da fazenda onde era
capataz, como presente da sua ausência. Ele não viria nem parte da sua família
por falta de recursos.
No cardápio imutável
ano após ano, cabia uma salada de maionese, a massa fresca ao sugo com tomates
frescos e maduros que mamãe fazia e o frango caipira que vovó abatia destroncando
seu pescoço, uma prática cruel, porém usual e antiga lá aonde ela nascera. Tia Brígida
trazia as rabanadas para a sobremesa e um pavê de nozes. Mamãe providenciava a uva niagara
rosada, sua preferida. Os adultos bebiam vinho, as crianças,
refrigerante.
Na sala de jantar, tinha um pinheiro desmontável de plástico, decorado com bolas vermelhas de vidro, uma ponteira lá no alto e algodão para imitar neve, sem pacotes embaixo dele. A troca de presentes entre os adultos não acontecia. Na manhã do dia 25, lá encontrávamos apenas os que o Papai Noel trouxera para nós, só para nós.
Um dia, nem sei como foi, deixei
de acreditar nele, mas continuei com um sorriso no espelho.
À mesa, comíamos, conversávamos, ríamos. Não recitávamos nenhuma oração nem lembrávamos de Cristo, sem tempo para a Missa do Galo. Sim, Jesus nascera, era ponto pacífico, sem discordância ou contestação entre nós. Estávamos unidos por causa disso. No entanto, não vivíamos o significado místico dessa data nem suas implicações para nós que acreditávamos ser católicos. Em casa, falava-se em Deus apenas na hora de dormir. “A benção, mãe. A benção, pai. A benção, vovó. Deus que mande a santa boa noite.”
Era assim e, apesar disso, estou certa de que foram dias cristãos.
LIC
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