segunda-feira, 24 de novembro de 2025

ERA UMA VEZ NO NATAL

O bombardeio do “Antes do Natal, tenho que...”, começando cada vez mais cedo, no início de novembro ou até antes, numa crescente antecipação natalina, cria um estado de ansiedade generalizado e, sem perceber, agimos plugados em 220 volts.

Daí, um evento que supostamente deveria gerar calma, se torna caótico com uma quantidade extra de tarefas inesperadas e criadas como estímulo ao consumo. Isso tudo pra quê mesmo? O que ficará disso tudo?

Foi então que lembrei de um tempo sem correria ou stress de última hora. Eu era criança. Eu gostava do Natal.

Na casa dos meus pais, dezembro tinha dias marcados por união familiar. Ao menos por uma semana, vivíamos como numa pensão. Éramos sete, ficávamos em muitos.

Para festejar os dias 24 e 25, tios e primos do interior vinham para se hospedar, se acomodando à noite em colchões espalhados no chão da sala de estar. Os da capital chegavam na tardezinha da véspera.

O prenúncio do início do Natal era a chegada dos engradados com o peru e o leitão, que seriam mortos para a ceia e o almoço. O irmão mais velho do papai enviava da fazenda onde era capataz, como presente da sua ausência. Ele não viria nem parte da sua família por falta de recursos.

No cardápio imutável ano após ano, cabia uma salada de maionese, a massa fresca ao sugo com tomates frescos e maduros que mamãe fazia e o frango caipira que vovó abatia destroncando seu pescoço, uma prática cruel, porém usual e antiga lá aonde ela nascera. Tia Brígida trazia as rabanadas para a sobremesa e um pavê de nozes. Mamãe providenciava a uva niagara rosada, sua preferida. Os adultos bebiam vinho, as crianças, refrigerante.

Na sala de jantar, tinha um pinheiro desmontável de plástico, decorado com bolas vermelhas de vidro, uma ponteira lá no alto e algodão para imitar neve, sem pacotes embaixo dele. A troca de presentes entre os adultos não acontecia. Na manhã do dia 25, lá encontrávamos apenas os que o Papai Noel trouxera para nós, só para nós. 

Um dia, nem sei como foi, deixei de acreditar nele, mas continuei com um sorriso no espelho.

À mesa, comíamos, conversávamos, ríamos. Não recitávamos nenhuma oração nem lembrávamos de Cristo, sem tempo para a Missa do Galo. Sim, Jesus nascera, era ponto pacífico, sem discordância ou contestação entre nós. Estávamos unidos por causa disso. No entanto, não vivíamos o significado místico dessa data nem suas implicações para nós que acreditávamos ser católicos. Em casa, falava-se em Deus apenas na hora de dormir. “A benção, mãe. A benção, pai. A benção, vovó. Deus que mande a santa boa noite.” 

Era assim e, apesar disso, estou certa de que foram dias cristãos.

LIC

 


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