segunda-feira, 17 de novembro de 2025

PÉ DE VALSA


Sim, herança pode ser destino. Ele é um “pé de valsa” – pensei vendo meu irmão dançar.

Mamãe também era uma exímia dançarina. Ela tinha equilíbrio, requebro, soltura de corpo. Os dois eram a dupla perfeita nas festas, porque papai tinha “dois pés esquerdos”, sem jeito até para um bolero dois pra lá-dois pra cá. Senti isso quando dançamos a valsa dos meus 15 anos. Ele colaborou para que os dedos dos meus pés quadrados, já esmagados num sapato de bico fino, ficassem ainda mais arroxeados.

Lembranças...

Estávamos numa domingueira naquele domingo chuvoso. Como a meteorologia prometia baixas temperaturas ao anoitecer, eu já me comprometera comigo mesma a assistir um filme perfeitamente ajustado ao sofá reclinável, a uma manta e chá de gengibre com limão.

Mas o telefone tocou. Era ele, meu irmão “pé de valsa”.

– O que você vai fazer hoje à noite?

Diante da minha resposta, ele impôs o convite.

– Tem domingueira no Clube Atlético, noite especial para os aniversariantes do mês. Vamos! Para de fugir da realidade, vem pro mundo real e se prepare para ver cenas e figuras bizarras.

Aceitei curiosa.

Com que roupa que eu vou? – me perguntei. Há anos, frequentava apenas lugares onde podia usar roupas atemporais, práticas e descomplicadas, tipo “estilo confortável”, inadequadas a um baile.

Achei que o vestido em veludo azul-marinho com paetê que usara no casamento da minha neta ano passado seria adequado para ocasião e lugar. Calçar o sapato de salto alto que combinava é que foi um martírio. Meus pés mereciam compreensão, pois eu os expandira em largueza com modelos usaflex, tênis e havaianas.

Ensaiei alguns passos do quarto para a sala, da sala para a cozinha como uma equilibrista caminhando sobre arame esticado suspenso no ar. Percebi que dançar seria uma atitude arriscada.

Como evitar acidentes é dever de todos, fui de braço dado com minha cunhada do estacionamento até o salão. À mesa que reservamos, tomei um “chá de cadeira” preventivamente assumido. Proibi meu irmão de me tirar para dançar e recusei dois convites em nome de minha segurança pessoal e do eventual parceiro.

Decidira fruir o evento como plateia.

O salão estava repleto de casais da terceira idade e vários avulsos. Uns dançavam com passos calmos, outros em coreografias acrobáticas, gastando mais energia do que pareciam ter.

Seria difícil determinar a idade de alguns que estavam ali, pois nada envelhece mais que uma pessoa fingir que ainda é jovem. Senão todos, muitos – senhores e senhoras – tentavam encobrir o envelhecimento com indumentos e comportamentos. Inúteis tentativas.

A revolução da longevidade nos garantiu mais anos de vida do que a nossos avós, mas ainda assim estamos condicionados à maldosa entropia (segunda lei da termodinâmica) e à implacável lei da  gravidade: tudo cai por terra.

E esse segundo período de vida adulta vem sendo desperdiçado em tentativas frustradas da terceira idade se vincular a um modelo de sociedade dominada por valores jovens – estar “por dentro”, padrões de beleza irreais, produtividade, ativismo, protagonismo.

Lembro-me de minhas avós, com que convivi desde meu nascimento até a morte delas. Sem olhar para o lado de fora, elas estiveram bem no envelhecer. Foram simplesmente e serenamente idosas.

O espetáculo terminou às 11 da noite. Todos extenuados, os que tinham dançado e os que, como eu, ficaram o tempo todo sentados.

Quando cheguei em casa, me despi, tomei banho, vesti o pijama e, movida pela noitada, resolvi tirar da minha biblioteca “A arte de envelhecer”, do Schopenhauer. Li até de madrugada.

Amanheci com a certeza de que posso envelhecer sem sapatos de salto alto.

LIC

 

 

 

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