Sim,
herança pode ser destino. Ele é um “pé de valsa” – pensei vendo meu irmão
dançar.
Lembranças...
Estávamos numa domingueira naquele domingo chuvoso. Como a
meteorologia prometia baixas temperaturas ao anoitecer, eu já me comprometera comigo
mesma a assistir um filme perfeitamente ajustado ao sofá reclinável, a uma manta
e chá de gengibre com limão.
Mas
o telefone tocou. Era ele, meu irmão “pé de valsa”.
–
O que você vai fazer hoje à noite?
Diante
da minha resposta, ele impôs o convite.
–
Tem domingueira no Clube Atlético, noite especial para os aniversariantes do
mês. Vamos! Para de fugir da realidade, vem pro mundo real e se prepare para
ver cenas e figuras bizarras.
Aceitei curiosa.
Com que roupa que eu vou? – me
perguntei. Há anos, frequentava apenas lugares onde podia usar roupas
atemporais, práticas e descomplicadas, tipo “estilo confortável”, inadequadas a
um baile.
Achei que o vestido em veludo
azul-marinho com paetê que usara no casamento da minha neta ano passado seria
adequado para ocasião e lugar. Calçar o sapato de salto alto que combinava é
que foi um martírio. Meus pés mereciam compreensão, pois eu os expandira em largueza
com modelos usaflex, tênis e havaianas.
Ensaiei alguns passos do quarto
para a sala, da sala para a cozinha como uma equilibrista caminhando sobre arame
esticado suspenso no ar. Percebi que dançar seria uma atitude arriscada.
Como evitar acidentes é dever de
todos, fui de braço dado com minha cunhada do estacionamento até o salão. À
mesa que reservamos, tomei um “chá de cadeira” preventivamente assumido. Proibi
meu irmão de me tirar para dançar e recusei dois convites em nome de minha
segurança pessoal e do eventual parceiro.
Decidira fruir o evento como
plateia.
O salão estava repleto de casais da
terceira idade e vários avulsos. Uns dançavam com passos calmos, outros em
coreografias acrobáticas, gastando mais energia do que pareciam ter.
Seria difícil determinar a idade de
alguns que estavam ali, pois nada envelhece mais que uma pessoa fingir que
ainda é jovem. Senão todos, muitos – senhores e senhoras – tentavam encobrir o
envelhecimento com indumentos e comportamentos. Inúteis tentativas.
A revolução da longevidade nos garantiu mais anos de vida do que a nossos avós, mas ainda assim estamos condicionados à maldosa entropia (segunda lei da termodinâmica) e à implacável lei da gravidade: tudo cai por terra.
E esse segundo período de vida
adulta vem sendo desperdiçado em tentativas frustradas da terceira idade se vincular
a um modelo de sociedade dominada por valores jovens – estar “por dentro”, padrões
de beleza irreais, produtividade, ativismo, protagonismo.
Lembro-me de minhas avós, com que
convivi desde meu nascimento até a morte delas. Sem olhar para o lado de fora,
elas estiveram bem no
envelhecer. Foram simplesmente e serenamente idosas.
O espetáculo terminou às 11 da
noite. Todos extenuados, os que tinham dançado e os que, como eu, ficaram o
tempo todo sentados.
Quando cheguei em casa, me
despi, tomei banho, vesti o pijama e, movida pela noitada, resolvi tirar da
minha biblioteca “A arte de envelhecer”, do Schopenhauer. Li até de madrugada.
Amanheci com a certeza de que posso
envelhecer sem sapatos de salto alto.
LIC
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