Às 8 da
manhã, o ônibus 508L-10 parou na praça General Polidoro. Naquela terça-feira,
como desde alguns meses, lá estava eu esperando por ele. Era o mesmo motorista,
o mesmo cobrador, os mesmos passageiros já entrados e, talvez, seriam os mesmos
que entrariam.
Bem, nem
todos.
O banco de
dois lugares, atrás do condutor e antes da catraca, costuma estar vazio. Prefiro
ocupar o assento do corredor para me dar a liberdade de sair.
No ponto
seguinte, embarcou uma senhora que pediu licença para sentar no meu banco. Era
de estatura alta, magra, o rosto tinha cor amarelada e doentia, sem viço, assim
como o cabelo tingido com a raiz desbotada. Vestia roupa que cheirava a naftalina.
Juntei as
pernas, joelho com joelho, girei-as para a direita, me preparando para dar espaço
para ela ocupar o assento na janela.
Sem que eu
perguntasse, falou que desceria na Barão de Limeira.
– A
senhora vai mais distante do que eu, disse, aliviando minha consciência por não
ceder o assento do corredor, mesmo vendo seu esforço em se equilibrar quando o
motorista acelerou para escapar do sinal vermelho.
Foi a
deixa para ela começar um monólogo. Um solilóquio, na verdade, porque me ter ao
seu lado parecia irrelevante. Ela dirigia-se a si mesma, expondo em voz alta sua
existência, concentrada em si mesma.
– Como esse
ônibus demora. Fui fazer exame de sangue aqui por perto, na clínica do meu convênio,
cada vez pior. Cobram caro, a mensalidade é um absurdo e diminuíram os lugares
de atendimento.
O ônibus descia
a Bueno de Andrade.
Ela voltou
a falar.
– Que rua suja! É porque lá adiante só
tem cortiço, comentou, apontando o dedo acusador para uns sobrados de fachadas
deformadas. Só assim mesmo pra conseguir morar perto do centro. Minha diarista
mora em Itaquera, não paga aluguel, tem casa própria, mas levanta 4 da manhã
pra chegar às 6 lá em casa.
Pensei argumentar,
mas conclui que não valia a pena. “Essa senhora deve ter acordado de mau humor
e só está desopilando o fígado.”
– São
Paulo está cada vez mais feia. Veja, os portões de garagens e comércios estão
pichados. Dizem que é arte. É vandalismo, isso sim.
O ônibus
fez uma curva fechada em velocidade que a fez tombar pesadamente para meu lado.
– Como dirigem mal, ela rezingou.
Se aprumou
no seu canto e pediu desculpa. Esse breve esbarrão a fez recordar que não
estava sozinha e me levou a ter voz.
– Qual o
seu nome? A senhora é aqui de São Paulo? Vai descer aonde?
Estávamos na
Conselheiro Furtado e eu perto do meu destino.
– Na praça
da Sé.
– Que lugar sujo, não é?! Um covil
de desocupados, bêbados, drogados. Agora, chamam de pessoas em situação de rua.
Minha mãe dizia que uma vassoura varre todos os males. A Prefeitura devia fazer
isso, dar uma vassoura pra cada um limpar a sujeira que fazem por lá.
Então, me arredei
do papel de coadjuvante.
– Qual o nome da senhora?
– Anita. Um
sorriso que mal lhe desdobrou os lábios deu brilho a seus olhos, antes opacos
como vidro fosco.
Aos 87
anos, Anita é professora aposentada. “Não, não tenho filhos, sou solteira e moro
com o Afonso, meu cão maltês.” O tom de voz ríspido dos resmungos suavizou ao pronunciar
o nome do seu pet. Tem dois irmãos e sobrinhos com quem não convive por desentendimentos
sobre a partilha do espólio familiar. “Herdei a diabetes da minha mãe junto com
as paredes do apartamento onde morei com meus pais até eles morrerem.” Anita tateou
a bolsa que mantinha segura contra o peito de onde tirou um lenço.
O ônibus
deu um balanço imprevisto ao entrar no Pátio do Colégio.
– É aqui
que eu desço, anunciei.
Não deu
para mais.
Fiquei
ali, observando-a partir. Anita
tinha um resto de humanidade que resistia à crueza da vida.
LIC
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