quarta-feira, 2 de setembro de 2026

IGNES E GIUSEPPA

 

Essas duas senhoras já estavam na casa dos meus pais quando eu nasci.

Ignes, à esquerda na foto, aparece com a mesma idade que tenho hoje. Nascida no Brasil e descendente de italianos, casou-se com um imigrante de Pádua. Apesar de austero, Caetano não conseguiu abafar o espírito alegre da esposa, que se schiattava de rir com a “Praça da Alegria”, um programa humorístico de televisão dos anos sessenta. Depois da viuvez, vó Ínes (como eu a chamava) foi morar na edícula do sobrado doado por ela como herança para minha mãe. Era lá que meus irmãos e eu nos reuníamos à tarde, para ajudá-la a costurar botões em cartelas – seu jeito de ajuntar uns trocados à aposentadoria.

Ao seu lado está Giuseppa, vó Josefina, nascida em Perugia, que imigrou com a família para as Américas. Seus pais e irmãs desembarcaram na Argentina; ela e Fernando, imigrante de Nápoles e seu futuro marido, ficaram no Brasil. Estabeleceram-se no interior de São Paulo onde constituíram família e patrimônio. A febre tifoide trouxe-lhe a viuvez e pobreza logo após o nascimento do sétimo filho – meu pai, com quem ela foi morar depois do seu casamento com minha mãe. No sobrado da rua dos Patriotas 697, dividíamos um quarto. Depois de lhe pedir a bênção, entregava-me em segurança ao sono, embalada pela seriedade de sua oração: “Deus que mande a santa e boa noite”.

Suas histórias entrelaçavam-se nas colchas de crochê que teciam à tardinha, na modelagem à mão de cajuzinhos para as festas de aniversário, enquanto assistiam telenovela à noitinha e nas preocupadas confidências sobre os filhos.

Convivemos até o fim de suas vidas e minha história entreteceu-se com a delas em tão estreita simbiose que a morte não desfez. Mais de meio século, eis-me aqui relembrando nosso passado.

 LIC

 

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