quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

À ESPERA

Uma espera que cresce a cada semana e que encontrará satisfação quando os sinos da Missa do Galo anunciarem que o Verbo se fez carne.  

Com essa Boa Nova, seremos colocados diante do Menino na manjedoura.

Estendendo as mãos, Ele nos dirá o que mais tarde seus lábios de Mestre repetirão até o último suspiro na cruz: Segue-Me.

LIC

sábado, 6 de dezembro de 2025

O QUE REALMENTE IMPORTA

Naquele dia, logo muito cedo para mim que estava no Brasil, minha filha me telefonou da Itália para contar o que fizera naquele primeiro mês do seu ano sabático.

Nossa conversa durou pouquíssimos minutos porque o telefone do seu quarto tocou. O guia que ela contratara para uma excursão a Nápoles estava à espera no saguão do hotel.

“Bom, acho que vou indo, mãe. Tchau.”

Depois de tanto tempo distantes, eu esperava uma longa conversa repleta de detalhes. Essa despedida abrupta foi a deixa para eu dizer à Júlia o que eu disse, e de pronto.

Me sentindo atropelada e preterida pela insignificância de um passeio em Nápoles, o sabor amargo do ciúme fez meu ego se dilatar, autenticado por uma atitude insegura, confesso, de mãe.

Sim, sua filha está crescendo e se afastando escutei alguém “lá dentro” me dizendo assim que deliguei o telefone.

Abespinhada, fui caminhar. Dizem que caminhar tem efeito calmante, ajuda a processar pensamentos, clareia os bastidores da mente.

Trinta e cinco minutos foram suficientes para suar e me arrepender. Não, não de caminhar. De ter dito o que eu disse no calor da hora. Não no calor da caminhada, mas no calor do momento da despedida.

Chegando em casa, peguei o celular com a intenção de chamá-la para me explicar. Não atendeu.

Mais uma vez, naquele dia, meu ego se aprumou irritado. Tornei a validá-lo.

“Deixa estar, um dia ela vai me dar razão.”

Procurando esquecer o incidente, toquei o restante do dia como de costume, guardando nos porões do inconsciente o incidente daquela manhã.

A noite chegou e deixou sua marca, um pesadelo vívido e perturbador.

Júlia caminhava sozinha por uma cidade pichada em meio a um trânsito caótico. Carros circulavam alucinadamente por vias estreitas de mão dupla. Num beco sem saída, uma rua deserta apenas iluminada pelo letreiro de néon de uma danceteria que piscava interruptamente se destacava uma palavra em vermelho: “Napoli”. Um vulto sombrio envolto numa capa negra guardava a entrada. Júlia correu para lá, encharcada da chuva que começara repentinamente. Relâmpagos, trovões, um vento intenso, fez que ela se abrigasse sob o toldo daquele lugar. Ao mesmo tempo, olhando para todos os lados, procurava por táxi, se amaldiçoando porque esquecera o guarda-chuva que a mãe recomendara que levasse ao sair de casa naquele dia.

Acordei assustada, saltei da cama rapidamente.

Foi apenas um sonho – disse a mim mesma. Mas as emoções que eu estava sentindo eram reais e válidas.

Pratiquei algumas respirações lentas e profundas para acalmar meu sistema nervoso e telefonei para o hotel. O despertador sobre o criado-mudo marcava quatro da madrugada.

Lá é nove horas – calculei.

  Que aconteceu, mãe?

Contei meu sonho e só. Os bastidores ficam entre nós, queridos leitores.

Gargalhando, ela me garantiu que o passeio a Nápoles fora sem incidentes.

– Deixe de se preocupar comigo, eu estou bem. Que imaginação, hein, mãe?! Por que você não começa a escrever?

E, de novo, com pressa porque estava saindo para Sorrento, se despediu abruptamente.

Aceitei a sugestão. Esta é a primeira das crônicas com que ocupei minhas preocupações nesse ano sabático da Júlia.

LIC

 

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

SHAKESPEARE, HOMEOPATIA E ALOPATIA

 

“Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente.”

Esse aforismo de Shakespeare me fez lembrar de uma lombalgia, a que eu tive naquele mês, uma dor na região lombar que a Medicina classifica como aguda ou crônica dependendo de como aparece e do tempo de duração.

Apareceu inesperadamente. Fui dormir bem, acordei mal. Acreditei que seria de curta duração e encontrei rapidamente a causa. “Tenho que voltar a fazer musculação.” Eu abandonara a academia por contraposição de gostos e gastos entre nós.

Atualmente, pratico corrida lenta e relaxada. Já pratiquei – na minha década dos 30 – corrida de intensidade elevada e rápida, com objetivo de performance, mas sem espírito competitivo. Tenho “preguiça” de superar a mim mesma.

E isso começou quando, por causa do Dr. Cooper, correr se tornou o esporte para todos. Praticar “cooper” podia ser num parque público ou na rua, na hora que se quisesse ou pudesse, com apenas dois pré-requisitos: roupa e tênis adequados. Eram os anos 70, período que ficou conhecido como o do “boom da corrida”.

Depois dessa divagação, justificando a necessidade de exercícios de musculação se eu quiser continuar a correr, volto à lombalgia.

O diagnóstico correto e preciso foi feito pelo meu médico homeopata. O tratamento começou no dia 5 daquele mês com as seguintes prescrições: cinco gotas de Arnica Montana 6CH três vezes ao dia, massagem reparadora com óleo concentrado de arnica, bolsa de água quente de manhã e à noite, fisioterapia, evitar carregar peso, correção postural e nada de corrida.

Vinte e um dias depois, continuava lá, me impedindo de ficar em pé ou sentada por mais que 15 minutos, de me curvar (descobri o quanto faço objetos caírem no chão), de girar o tronco, de dormir confortavelmente, vestir e calçar sapatos etc.

Alguém aguenta dor bem-humorado? Pois nem eu. O mau humor foi chegando, consumindo minha energia mental. Como para esse mau não há remédio, apelei.

Sem consultar meu médico, fui à drogaria do Carlos, me “consultei” com o farmacêutico de plantão sobre qual antinflamatório de venda livre estava em alta popularidade, comprei e iniciei a ingestão imediata segundo a posologia recomendada na bula. Nem li os possíveis efeitos colaterais. O que os olhos não veem, o corpo não sente.

No primeiro dia, nada aconteceu. No segundo dia, leve desconforto ao me curvar (os objetos continuavam escapando das minhas mãos). No terceiro dia, incômodo só ao deitar. No quarto dia, já calçava os sapatos como uma jovem. No quinto dia, ela tinha ido embora e... ganhei uma gastrite.  

Alopatas de plantão, me recomendaram omeprazol. Dessa vez, li a bula online antes de comprar.

Como um bom filho à casa torna, eu voltei. Me curei com chá de espinheira-santa e paciência.

Moral da história: Shakespeare e a Homeopatia são precisos.

LIC

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

PÃO NA CHAPA

 

A cidade de São Paulo não tem igual na quantidade e diversidade de padarias e igrejas. Acredito que há uma diferente para cada um dos 365 dias do ano, ao gosto do freguês e do crédulo.

Se nem todos vão as igrejas com tanta frequência como a uma padaria, talvez seja por uma questão de imediatez, um dos males do nosso século. Tudo queremos para agora e rapidamente.

Muitos acreditam que as igrejas são mais para consumo emergencial, com benefícios abstratos a longo prazo, após um bom período de tempo, esforço e investimento pessoal. As padarias, pontos tradicionais de encontros para os paulistanos, ao contrário, são para consumo imediato todos os dias, todo o dia. Afinal, “comamos e bebamos porque amanhã morreremos”, já disse o profeta. 

Num pacto assinado em guardanapo durante o almoço de Natal daquele ano, meus dois irmãos e eu decidimos nos encontrar a sós – sem esposa, sem marido, sem filhos, sem netos – de dois em dois meses, em uma padaria para o desjejum, logo cedo, assim que suas portas se abrissem. Os notívagos diriam “de madrugada”. Cultivamos ainda hoje um hábito adquirido na casa paterna: dormimos com as galinhas e acordamos com os galos.

“Estamos envelhecendo”, um deles enfatizou para homologar o acordo, peremptoriamente válido e aceito  de imediato. Nós três já chegamos aos setenta.

As padarias nunca se repetem nem os assuntos. Por uma hora e meia, conversamos sem catequisar, crentes sem fanatismos no partido político, no time de futebol, na denominação religiosa que cada um escolheu pelas experiências de vida, genética e hereditariedade. Somos filhos da mesma mãe e do mesmo pai, com 50% do DNA de um e 50% do outro, mas não os mesmos 50%.

Enfim, não vamos lá procurar consenso, tão somente um pão na chapa, uma xícara de café e convívio. Entre uma bocada e um gole, recordarmos tempos passados, questionamos as mazelas da vida, os infortúnios diários, desabafamos desconfortos, festejamos as conquistas, planejamos o futuro, numa pausa do cotidiano que salva um dia difícil.

Satisfeitos, de corpo e alma, tiramos uma selfie, pedimos a conta, voltamos para nosso dia a dia e a vida continua.

Simples assim.

A cada Natal, renovamos esse contrato vitalício até quando Deus quiser.

LIC

ERA UMA VEZ NO NATAL

O bombardeio do “Antes do Natal, tenho que...”, começando cada vez mais cedo, no início de novembro ou até antes, numa crescente antecipação natalina, cria um estado de ansiedade generalizado e, sem perceber, agimos plugados em 220 volts.

Daí, um evento que supostamente deveria gerar calma, se torna caótico com uma quantidade extra de tarefas inesperadas e criadas como estímulo ao consumo. Isso tudo pra quê mesmo? O que ficará disso tudo?

Foi então que lembrei de um tempo sem correria ou stress de última hora. Eu era criança. Eu gostava do Natal.

Na casa dos meus pais, dezembro tinha dias marcados por união familiar. Ao menos por uma semana, vivíamos como numa pensão. Éramos sete, ficávamos em muitos.

Para festejar os dias 24 e 25, tios e primos do interior vinham para se hospedar, se acomodando à noite em colchões espalhados no chão da sala de estar. Os da capital chegavam na tardezinha da véspera.

O prenúncio do início do Natal era a chegada dos engradados com o peru e o leitão, que seriam mortos para a ceia e o almoço. O irmão mais velho do papai enviava da fazenda onde era capataz, como presente da sua ausência. Ele não viria nem parte da sua família por falta de recursos.

No cardápio imutável ano após ano, cabia uma salada de maionese, a massa fresca ao sugo com tomates frescos e maduros que mamãe fazia e o frango caipira que vovó abatia destroncando seu pescoço, uma prática cruel, porém usual e antiga lá aonde ela nascera. Tia Brígida trazia as rabanadas para a sobremesa e um pavê de nozes. Mamãe providenciava a uva niagara rosada, sua preferida. Os adultos bebiam vinho, as crianças, refrigerante.

Na sala de jantar, tinha um pinheiro desmontável de plástico, decorado com bolas vermelhas de vidro, uma ponteira lá no alto e algodão para imitar neve, sem pacotes embaixo dele. A troca de presentes entre os adultos não acontecia. Na manhã do dia 25, lá encontrávamos apenas os que o Papai Noel trouxera para nós, só para nós. 

Um dia, nem sei como foi, deixei de acreditar nele, mas continuei com um sorriso no espelho.

À mesa, comíamos, conversávamos, ríamos. Não recitávamos nenhuma oração nem lembrávamos de Cristo, sem tempo para a Missa do Galo. Sim, Jesus nascera, era ponto pacífico, sem discordância ou contestação entre nós. Estávamos unidos por causa disso. No entanto, não vivíamos o significado místico dessa data nem suas implicações para nós que acreditávamos ser católicos. Em casa, falava-se em Deus apenas na hora de dormir. “A benção, mãe. A benção, pai. A benção, vovó. Deus que mande a santa boa noite.” 

Era assim e, apesar disso, estou certa de que foram dias cristãos.

LIC

 


segunda-feira, 17 de novembro de 2025

PÉ DE VALSA


Sim, herança pode ser destino. Ele é um “pé de valsa” – pensei vendo meu irmão dançar.

Mamãe também era uma exímia dançarina. Ela tinha equilíbrio, requebro, soltura de corpo. Os dois eram a dupla perfeita nas festas, porque papai tinha “dois pés esquerdos”, sem jeito até para um bolero dois pra lá-dois pra cá. Senti isso quando dançamos a valsa dos meus 15 anos. Ele colaborou para que os dedos dos meus pés quadrados, já esmagados num sapato de bico fino, ficassem ainda mais arroxeados.

Lembranças...

Estávamos numa domingueira naquele domingo chuvoso. Como a meteorologia prometia baixas temperaturas ao anoitecer, eu já me comprometera comigo mesma a assistir um filme perfeitamente ajustado ao sofá reclinável, a uma manta e chá de gengibre com limão.

Mas o telefone tocou. Era ele, meu irmão “pé de valsa”.

– O que você vai fazer hoje à noite?

Diante da minha resposta, ele impôs o convite.

– Tem domingueira no Clube Atlético, noite especial para os aniversariantes do mês. Vamos! Para de fugir da realidade, vem pro mundo real e se prepare para ver cenas e figuras bizarras.

Aceitei curiosa.

Com que roupa que eu vou? – me perguntei. Há anos, frequentava apenas lugares onde podia usar roupas atemporais, práticas e descomplicadas, tipo “estilo confortável”, inadequadas a um baile.

Achei que o vestido em veludo azul-marinho com paetê que usara no casamento da minha neta ano passado seria adequado para ocasião e lugar. Calçar o sapato de salto alto que combinava é que foi um martírio. Meus pés mereciam compreensão, pois eu os expandira em largueza com modelos usaflex, tênis e havaianas.

Ensaiei alguns passos do quarto para a sala, da sala para a cozinha como uma equilibrista caminhando sobre arame esticado suspenso no ar. Percebi que dançar seria uma atitude arriscada.

Como evitar acidentes é dever de todos, fui de braço dado com minha cunhada do estacionamento até o salão. À mesa que reservamos, tomei um “chá de cadeira” preventivamente assumido. Proibi meu irmão de me tirar para dançar e recusei dois convites em nome de minha segurança pessoal e do eventual parceiro.

Decidira fruir o evento como plateia.

O salão estava repleto de casais da terceira idade e vários avulsos. Uns dançavam com passos calmos, outros em coreografias acrobáticas, gastando mais energia do que pareciam ter.

Seria difícil determinar a idade de alguns que estavam ali, pois nada envelhece mais que uma pessoa fingir que ainda é jovem. Senão todos, muitos – senhores e senhoras – tentavam encobrir o envelhecimento com indumentos e comportamentos. Inúteis tentativas.

A revolução da longevidade nos garantiu mais anos de vida do que a nossos avós, mas ainda assim estamos condicionados à maldosa entropia (segunda lei da termodinâmica) e à implacável lei da  gravidade: tudo cai por terra.

E esse segundo período de vida adulta vem sendo desperdiçado em tentativas frustradas da terceira idade se vincular a um modelo de sociedade dominada por valores jovens – estar “por dentro”, padrões de beleza irreais, produtividade, ativismo, protagonismo.

Lembro-me de minhas avós, com que convivi desde meu nascimento até a morte delas. Sem olhar para o lado de fora, elas estiveram bem no envelhecer. Foram simplesmente e serenamente idosas.

O espetáculo terminou às 11 da noite. Todos extenuados, os que tinham dançado e os que, como eu, ficaram o tempo todo sentados.

Quando cheguei em casa, me despi, tomei banho, vesti o pijama e, movida pela noitada, resolvi tirar da minha biblioteca “A arte de envelhecer”, do Schopenhauer. Li até de madrugada.

Amanheci com a certeza de que posso envelhecer sem sapatos de salto alto.

LIC

 

 

 

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

ONDE EXISTE AMOR, DEUS AÍ ESTÁ

 

Havia numa cidadezinha um sapateiro chamado Mikail Avdeievitch. Morava num porão cuja única janela dava para a rua, na altura do chão. 

Embora visse apenas os pés de quem passava pela rua, Mikail conhecia todas as pessoas pelos sapatos que usavam. Como já era velho e competente em seu trabalho, era raro um par de botas que não houvesse passado por suas mãos, fosse para um remendo, uma meia-sola ou para colocar um novo cano. Assim, era comum ver passar pela janela uma obra sua.

Mikail estava sempre muito ocupado, pois trabalhava com perfeição, usava material de boa qualidade, não cobrava caro e entregava no prazo prometido. Por isso todos o estimavam e nunca lhe faltava serviço.

Sempre fora um homem bom mas, ao envelhecer, começou a se preocupar com sua alma e queria se aproximar de Deus. Sua mulher tinha morrido quando ele ainda era aprendiz, deixando um filho de três anos. Haviam tido outros filhos antes, mas todos tinham morrido.

Ao se ver só com o menino pensou em mandá-lo para a casa de um tio, na aldeia, mas ponderou: “Será muito triste para o pequeno Karp viver longe de mim. É melhor ficar mesmo comigo”.

Pouco tempo depois, despediu-se do patrão e abriu sua própria oficina. Deus, porém, não velava muito por seus filhos. Quando o que lhe restara se tornou rapaz e começou a ajudá-lo, adoeceu e morreu em uma semana.

Mikail enterrou o filho. A perda feriu-lhe de tal modo o coração que chegou a murmurar contra a justiça divina. Sentia-se tão infeliz que implorava a Deus que lhe tirasse também a vida. 

Censurava o Senhor por não levar a ele, que já era velho, em lugar do filho único tão querido, e deixou de ir à igreja.

Um dia, na época da Páscoa, chegou à casa do sapateiro um conterrâneo seu que há oito anos percorria o mundo como peregrino. Conversaram muito tempo e Mikail se queixou amargamente da sua desgraça.

"Perdi o desejo de viver, agora só espero a morte. Peço a Deus que me leve, pois não tenho mais ilusões na vida."

"Não fale assim, Mikail. Os homens não devem julgar a vontade do Senhor, pois suas razões estão acima do nosso entendimento. Se Ele decidiu que seu filho morresse e você vivesse, tem que ser assim. Você se desespera porque só quer viver para sua própria felicidade."

"E para que viver, se não para isso?" - perguntou o sapateiro.

"É preciso viver para Deus. É ele quem dá a vida e para ele devemos viver. Quando entender isso, seu sofrimento terminará e você suportará tudo com paciência e resignação."

Mikail ficou calado por um momento, e disse:

"E como se vive para Deus?"

"Como Cristo ensinou. Você sabe ler? Pode aprender nos Evangelhos. Na Sagrada Escritura você encontrará resposta para todas as perguntas."

Essas palavras calaram fundo no coração de Mikail.

No mesmo dia comprou um exemplar do Novo Testamento, impresso em letras bem grandes, e começou a ler.

Pretendia pegá-lo somente nos dias de folga, mas o texto lhe trazia tal consolo à alma que foi adquirindo o hábito de ler algumas páginas todos os dias. Às vezes, se entretinha de tal modo que só deixava o livro quando o óleo da lâmpada terminava.

Lia todas as noites. À medida que progredia na leitura, ia compreendendo com maior clareza o que Deus exigia, como viver para Deus, e a alegria penetrava docemente em sua alma.

Acostumado a ir se deitar gemendo e suspirando com a lembrança dos filhos, agora dizia:

"Glória a Deus, glória ao Senhor, pois essa foi a sua vontade."

A vida do sapateiro transformou-se completamente. Antes, nos dias de festa, ia para a taberna tomar chá e, por vezes, um gole de vodca com os amigos. Nessas ocasiões saía da taberna não propriamente embriagado, mas um tanto eufórico, e dizia bobagens, chegava a insultar quem encontrava no caminho.

Agora tudo mudara. Sua vida transcorria em harmonia e paz. Punha-se a trabalhar ao amanhecer e, terminado o dia, colocava a lâmpada sobre a mesa, tirava o livro da prateleira e sentava-se para ler. Quanto mais lia, melhor compreendia e uma suave serenidade envolvia-lhe a alma.

Uma noite, estendeu a leitura até bem tarde e, chegando ao capítulo VI do Evangelho de São Lucas, encontrou os seguintes versículos:

“Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra. Ao que te tirar o manto, não o impeças de levar também a túnica. Dá a todo aquele que te pede; e ao que leva o que é teu, não lhe tornes a pedir. O que quereis que vos façam os homens, fazei-o também a eles.”

A seguir, leu que o Senhor disse:

“Por que me chamais: Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos digo? Todo aquele que vem a mim, que ouve minhas palavras e as põe em prática, eu vos mostrarei a quem ele é semelhante. É semelhante a um homem que, edificando uma casa, cavou profundamente e pôs os alicerces sobre a rocha. Vindo uma inundação, investiu a torrente contra aquela casa e não pôde movê-la, porque estava bem edificada. Mas o que ouve e não pratica é semelhante a um homem que edificou a sua casa sobre a terra, sem fundamentos. Investiu a torrente contra ela e logo caiu, e foi grande a ruína daquela casa.”

Ao ler essas palavras, seu coração se inundou de alegria. Deixou os óculos sobre o livro e apoiou os cotovelos na mesa, imerso em reflexão. Comparou seus próprios atos a essas palavras, e disse:

"Minha casa está fundada sobre rocha ou sobre areia? Seria bom se estivesse apoiada na rocha. A felicidade nos domina quando estamos em paz com a consciência, procedendo como Deus quer. Quando nos esquecemos de Deus podemos cair outra vez em pecado. Continuarei como estou, pois sinto que é bom. Que Deus me proteja!"

Mergulhado nesses pensamentos, resolveu ir se deitar. Mas relutava em largar o livro e começou o sétimo capítulo. Leu a história do centurião, a do filho da viúva e a resposta de Jesus aos discípulos de São João. 

Chegou ao trecho em que o rico fariseu convidou Jesus para ir à sua casa, onde a pecadora ungiu-lhe os pés e os lavou com suas lágrimas e Ele perdoou-lhe os pecados, e leu ainda:

“E voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa, não me deste água para os pés; ela, com as suas lágrimas me banhou os pés, e enxugou-os com os cabelos. Não me deste o ósculo da paz; porém ela, desde que entrou, não cessou de beijar os meus pés. Não ungiste minha cabeça com bálsamo, porém esta ungiu com bálsamo os meus pés.”

Ao ler esse versículo, Mikail pensou: “Não lhe deu água para os pés, não o beijou, não ungiu a cabeça dele com bálsamo...” Tornou a tirar os óculos, colocou-os sobre o livro e voltou às reflexões. 

“Aquele fariseu deve ter sido como eu. Ele também só pensava em si mesmo - tomar o seu chá, estar agasalhado, confortável, nem um pensamento para o hóspede. Cuidava de sua vida e nem pensava no conforto do convidado. E quem era esse convidado? O próprio Deus! Se Ele viesse me visitar, eu faria a mesma coisa?”

Mikail apoiou a cabeça nos braços cruzados sobre a mesa e, sem se dar conta, adormeceu.

"Mikail!"- disse uma voz de repente, sussurrando em seu ouvido. Despertou assustado.

"Quem é?" - perguntou.

Olhou em volta, olhou para a porta, não viu ninguém. A voz tornou a chamar, desta vez com mais clareza.

"Mikail, Mikail! Olha para a rua amanhã, pois eu virei."

Mikail levantou-se da cadeira, esfregando os olhos, sem saber se ouvira as palavras num sonho ou acordado. Apagou a lâmpada e foi dormir.

No dia seguinte, levantou-se antes do amanhecer, fez suas orações e acendeu o fogo para preparar a sopa de repolho e o mingau. Mantendo acesa a chama do samovar, vestiu o avental e sentou-se junto à janela para trabalhar.

Não conseguia afastar o pensamento do que acontecera na véspera, sem saber se fora uma alucinação ou se alguém falara realmente.

"São coisas que acontecem na vida" - disse a si mesmo.

Continuava a trabalhar, espiando de vez em quando pela janela e, quando passavam botas desconhecidas, levantava-se para ver o rosto da pessoa.

Conto de León Tolstói, escrito em 1885.

P.S.: QUER SABER O FIM DESSA HISTÓRIA? LEIA O LIVRO! 📚

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

TERESA DE CEPEDA Y DE AHUMADA


 

Teresa de Cepeda y de Ahumada (nasceu em Ávila em 1515) guiada por Deus por meio de colóquios místicos e por seu colaborador e conselheiro espiritual São João da Cruz (reformador da parte masculina da ordem carmelita), empreendeu aos quarenta anos uma missão que tem algo de incrível para uma mulher de saúde delicada como a sua: do mosteiro de São José, fora dos muros de Ávila, primeiro convento do Carmelo por ela reformado, partiu, carregada pelos tesouros do seu Castelo Interior, para todas as direções da Espanha.

Levou a termo numerosas fundações, suscitando também muitos ressentimentos, até a ponto de lhe ser temporariamente revogada a licença de reformar outros conventos ou de fundar novas casas.

Mestra de místicos e diretora espiritual, mantém correspondência epistolar com o próprio rei Filipe II da Espanha e com as personagens mais ilustres da época. Como, no entanto, era mulher prática, ocupava-se das mínimas coisas do convento e não descuidava da parte econômica, pois dizia sabiamente: “Teresa sem a graça de Deus é pobre mulher, com a graça de Deus, uma força; com a graça de Deus e muito dinheiro, uma potência”.

Teresa escreveu, por solicitação do confessor, a história da sua vida, um livro de confissões.

No prefácio observa: "Eu quisera que, como me mandaram escrever o meu modo de oração e as graças que me deu o Senhor, me concedessem também de contar minuciosamente e com clareza os meus grandes pecados’’.

É a história de uma alma que apaixonadamente luta para subir, sem no começo conseguir.

Por isso, do ponto de vista humano, Teresa aparece mais próxima de nós, dando-nos a imagem de criatura feita de carne e osso, ao contrário da representação berniniana, em que Santa Teresa nos aparece excessivamente lânguida.

Desde a meninice manifestou temperamento exuberante (aos sete anos fugira de casa para procurar o martírio na África) e tendências antagônicas à vida mística e à atividade prática, organizadora.

Duas vezes esteve gravemente enferma.

Durante a doença começou a viver algumas experiências místicas que transformaram profundamente a sua vida interior, dando-lhe a percepção da presença de Deus e a experiência de fenômenos místicos descritos por ela mais tarde nos seus livros Caminho da Perfeição, Pensamentos sobre o amor de Deus, Castelo Interior.

Morreu em Alba de Tormes na noite de 15 de outubro de 1582 e em 1622 foi proclamada santa. Paulo VI, a 27 de setembro de 1970, reconheceu-lhe o título de Doutora da Igreja.

Extraído do livro: Um santo para cada dia, de Mario Sgarbossa e Luigi Giovannini.

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

QUE SABEMOS NÓS?

Foi em julho deste ano. Para comemorar meu aniversário, planejei uma viagem solo à Itália. Com acesso fácil a mares, a parte sul do “país da bota” era o lugar ideal. Banhada pelo Adriático, o Jônico e o Tirreno, o verão fica suave por lá. Meu plano era explorar a Costa Amalfitana.

Com tudo planejado até o último detalhe, embarquei para Roma, ponto de partida para a conexão ao aeroporto Capodichino, em Nápoles, a primeira parada do roteiro. As forças que favorecem os metódicos, focados e previdentes também favoreceriam minha estadia em Nápoles, uma cidade com a péssima reputação de ser uma das menos seguras da Itália. Já estivera por lá anos atrás, sabia disso, e o ChatGPT confirmou esse cenário.

Sim, recorri à inteligência artificial para estar a salvo de perigos e intempéries com zero probabilidades de ocorrências nefastas. Baixei o aplicativo de fonte confiável que me garantiu respostas com informações sobre clima e segurança claras, pontuais, assertivas sem delongas.

Ao religar meu celular assim que aterrissamos, recebi de Enzo Santoro, o motorista que eu contratara, a confirmação da corrida à Residenza Neri, em Posillipo.

O ChatGTP comentara sobre o trânsito caótico de Nápoles, mas ficou muito longe da realidade dos motoristas napolitanos. Eles são “loucos”, ousados, imprudentes, indisciplinados. Circulam pelas ruas, mesmo as mais estreitas, em alta velocidade.

Enzo, um jovem napolitano, seguia o padrão. Por 15 km, dirigiu como se estivesse testando uma Ferrari em pista de corrida. Minha imaginação, por natureza ilimitada, começou a funcionar imediatamente: invalidez permanente ou morte imediata após um acidente de capotamento.  

Grazie a Dio, chegamos ilesos ao hotel. Ainda atarantado, praguejei contra a inteligência limitada do ChatGPT quanto a eventos aleatórios, eventuais, fortuitos.

Registrei minha chegada, recebi a chave do quarto e dispensei o jantar. Precisava apenas de um banho e o alívio de uma cama. Amanhecia quando comecei a dormir. Acordei para o almoço, com o estômago roncando.  

O dia estava quente e úmido. Na necessidade de sentir que caminhava sobre solo firme num bairro seguro, saí para caminhar. Posillipo é uma área residencial nobre, tranquila, acima do caótico centro histórico napolitano.

Mas fui surpreendido pela velocidade mais uma vez. 

 Ehi, attento!

Ao tentar atravessar a rua, quase fui atropelado por uma Vespa. Pulei para a calçada e me encostei no muro da residência mais próxima. Ao desviar de mim, a moto colidiu com o carro da frente e o motociclista foi arremessado para longe. Ouvi o barulho metálico do choque.

O trânsito parou e muitas pessoas acorreram ao local. Também me aproximei e reconheci o jovem napolitano que me trouxera do aeroporto. “È morto!”, diziam. Não esperei para ver confirmada a sentença.

À noite, peguei o trem na estação central de Nápoles para seguir viagem.  

Muitas vezes ouvi céticos usarem a palavra “improvável”, mas aprendi que muito do que consideramos impossível acontece todo dia. Nem a realidade nem o ChatGPT dão conta do inesperado.

LIC

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

UMA CASA REAL

 

“Ainda não.” Assim Mateo respondia quando lhe sugeriam uma visita àquele santuário afirmando ser o maior do mundo. Mesmo crente em Deus, ele não sofria de religião. Na época certa, foi levado à igreja e não se interessou por nada daquilo. Mas quando as coisas não iam bem, esquecia que era incrédulo e rezava em segredo.

Naquele dia, Mateo esteve lá por uma boa razão e por uma razão verdadeira.

Isabel, de quem estava apaixonado, o convidara. E, ultimamente, inquietações o impulsionavam a se envolver com o além do palpável. Cansara de perguntar aos seus botões sobre a irracionalidade da vida.

Isabel garantiu que seria uma visita monitorada, afirmando que no templo, a começar da estrutura e dos tijolos, tudo tinha uma razão de ser: imagens, formas e formatos, contornos, cores e tons, painéis, vitrais e mosaicos. “Nem um só prego foi colocado sem um sentido teológico, litúrgico e mistagógico. Muitos vêm com um fundo de bom sentimento e de interesse pessoal, em busca de graças, e nem lhes prestam atenção”, ela comentou.

Chegaram ao Santuário a tempo de passar diante da pequena imagem negra. Retirada das águas do rio Paraíba do Sul por três pescadores, ela realizou um primeiro milagre, o da pesca abundante. “E continua realizando eventos extraordinários; depois vou levar você até a Sala das Promessas”, Isabel prometeu.

“Tia Lavínia fez muitas”, Mateo lembrou. “Pela saúde do marido tísico, por um bom casamento para a filha, por um emprego para o filho alcoólatra, por conflitos familiares etc.”

Na hora agendada, encontraram Alice, a guia. “Vamos entrar pela nave norte através desta majestosa porta em bronze, a Porta Santa, aberta por ser um ano jubilar”.  Mateo não fazia a mínima ideia do que isso significava. Nem sequer se atreveu a perguntar diante da reverência e silêncio com que Alice os fez atravessar o portal.

Durante hora e meia, Alice apresentou em minúcias a arte e a arquitetura da área central, um espaço sagrado sem janelas e tantas portas, onde grandes colunas sustentam, envolvem e protegem o altar principal coroado pela Cúpula Central.

Apontando para o alto, ela continuou. “Lá está a Árvore da Vida, a que brotou do pequeno grão de mostarda, onde as aves vêm fazer seus ninhos. Lembram da parábola?”, ela perguntou. Mateo, ao ouvir “mostarda”, só lhe veio ao pensamento o tempero que colocava no hot-dog. Tomado de assalto por resquícios da sua herança religiosa, alguém dentro dele fez um sermão e o censurou.

“É de lá, a oito metros de altura, que desce a Cruz do Nada, com o corpo vazado de quem é a centralidade do mundo ocidental cristão, o Messias, Cristo Jesus. Observada dos corredores laterais, ela desaparece, remetendo à passagem bíblica do enigma da fé, acreditar sem ver”, Alice acrescentou.

“Sim, como minha mãe”, Mateo recordou. “Ela dizia que a ignorância humana não tem limites, mas a fé firme e certa em Deus e sua sapiência oferecem respostas tranquilizadoras sobre a existência, a vida, a morte e nosso lugar no universo.”  

Foi então que Alice pediu que inclinassem a cabeça e baixassem o olhar. Minando do altar, o desenho em ziguezague de ondas de água em movimento “escorria” sob seus pés, aumentando progressivamente até um metro e meio pelo granito das paredes, fluindo pelas arcadas externas. “Até o piso tem teologia. Essas águas lembram a visão do profeta Ezequiel”, Isabel sussurrou.

Mateo ignorava a que ela se referia. Só lembrou que Ezequiel era o nome do zelador do seu prédio. Mais uma vez alguém dentro dele fez um sermão e o censurou.

Com o desejo de conferir onde aquelas ondas cravadas no chão o levariam, Mateo se afastou de Isabel e, já no exterior da Basílica, seguiu-as.

Chegou ao ponto de partida, diante da pequena imagem negra. Um jovem, com as mãos unidas e os olhos voltados para cima, rezava ajoelhado diante do nicho. Mateo se deteve e, curioso, apurou os ouvidos para escutar a prece que ele sussurrava a Maria. “Concedei-me que eu volte a ser irmão do vosso menino.”

Impactado pela súplica e sem se dar conta, Mateo repetiu o que ouvira, de joelhos.

Milagre? Quando não se tem fé, não se vê os milagres.

LIC


 

terça-feira, 29 de julho de 2025

ÀS DUAS HORAS DA TARDE DE DOMINGO

 

 

Diante da folha em branco, caneta em punho, minha atenção foi despertada. O relógio do campanário marcou o tempo presente, o que era naquele instante. Duas horas da tarde de domingo.

Minha memória despertou. Foi de repente, como ela surge, desencadeada pelo som do piano da vizinha que insistia em tocar uma escala com agilidade e precisão. Trouxe um outro domingo às duas horas da tarde.

Morávamos em um sobrado geminado que, até onde posso lembrar, era herança do meu avô materno.

Um portão grande servia para a entrada de carros. O menor, para entrarmos. O restante era muro alto. Da rua para o quintal, havia um jardim sem flores e uma varanda imediata à sala de estar decorada com um sofá de quatro lugares e uma poltrona, tudo em courvin marrom, encostados na parede, de frente para a televisão. A mesinha de centro diariamente era ocupada pelo jornal que meu pai espalhava depois de lido.   

A sala de jantar estava entulhada com móveis antigos – um buffet, uma cristaleira, o barzinho e uma mesa com seis cadeiras em pau-marfim descaracterizado pelas inúmeras vezes que minha mãe lixara e envernizara a madeira. Sobre essa mesa, colocaram o caixão com o corpo da minha avó materna e lá fizemos seu velório. 

Uma porta dava acesso à copa e cozinha com tudo, absolutamente tudo – mesa, cadeiras, armários – revestido de fórmica vermelha brilhante. A geladeira também era vermelha, tendência pop dos anos 70.

Seguindo em direção ao quintal, tinha o quarto de empregada e um banheiro pequeno que todos usavam durante o dia.

A porta da cozinha se abria para o quintal com piso de cacos de cerâmica. Um canteiro estreito, onde cresciam trepadeiras – uma videira, um pé de maracujá e um de chuchu, ladeava a parede que separava a nossa da casa do vizinho. De lá saiam as formigas e os tatus bolinhas que meu irmão pegava e torturava de todos os modos que se pode conceber e por tempo sem fim.

No andar superior, para onde se chegava por uma escada de dezesseis degraus, que eu repetidamente contava tantas fossem as vezes que subisse ou descesse, tinha um banheiro com chuveiro e banheira que ninguém usava – tomávamos banho de pé dentro dela – três quartos, uma sacada aberta para a rua da frente e outra para os fundos, para o quintal.

A casa ressonava. Meus pais cochilavam no sofá, segundo o costume no domingo, e meu irmão saíra para algum lugar onde havia amigos e diversão.

Eu estava na cozinha, lavando a louça do almoço, panelas, travessas, pratos, talheres espalhados sobre a pia e o fogão. Minha mãe fizera o almoço às pressas entre as idas e vindas da feira nas ruas próximas, sem tempo para limpar o que sujava.

Tocaram a campainha. Meu pai acordou e foi atender aquele homem corpulento vestido com aprumo, de rosto e nariz franzidos que faziam pensar num buldogue. Era um agiota, soube no dia seguinte.

Notei que meu pai, acabrunhado, entrou e, à indagação da mamãe, disse que viriam buscar o piano. A dívida crescera e ficara impossível de pagar.

Sim, antes da televisão, existira aquele piano na nossa sala de estar.

LIC

 


sexta-feira, 11 de julho de 2025

CONFISSÕES

Meu irmão e eu tínhamos a tarefa de limpar a biblioteca de papai uma vez por ano, nas férias de julho.

Tirávamos todos os livros das estantes e, depois de espanar o pó, limpávamos as capas e as lombadas de couro com um produto especial, um a um.

Uma tarefa indigesta, mas que me abriu um canal de comunicação sensorial com os livros. Naquela sala entulhada de volumes, de uma forma misteriosa, eu absorvia sua sabedoria pelo tacto, pelo olfato, pela visão, sem mesmo os ler.

Dizem que os livros encontram seus leitores. Foi assim, na tarde daquele sábado invernal.

Ao abrir o nicho das obras de não ficção, da prateleira inferior, um livro caiu no chão de boca para baixo, com a contracapa à vista.

Por coincidência, no dia anterior, meu pai comentara sobre esse livro quando passamos diante de uma igreja.

Era um dos poucos sem a data da compra, que papai anotava como registro dos seus interesses e experiências de leitura ao longo do tempo.

Estava intacto, sem marcações, trechos destacados ou sentimentos anotados, sem a versão de quem já o lera. Meu pai não lia com um lápis na mão.

Ao desvirá-lo, senti que era um reencontro, pois suas mais de 300 páginas nos afastaram por diversas vezes, até pela profundidade e complexidade da obra.

Coloquei-o na escrivaninha decidido a encará-lo.

Costumo ignorar prefácios e prólogos, desnecessários como os padres e os canudinhos de refresco, pois, como diz o Quintana, “não há nada que substitua a comunicação direta”.

De imediato, fui ao início da vida terrena do autor e personagem principal. Sim, era uma autobiografia. Ou um mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa?!

As páginas estavam mergulhadas num amargo arrependimento por quantos e quão grandes erros ele se afeiçoara desde a infância. “Sem dúvida, então o meu procedimento era repreensível (...) era seduzido e seduzia, era enganado e enganava.”

Como o publicano, que nem ousava levantar os olhos para o céu, também ele pedia misericórdia. “Compadecei-vos, para que possa falar!”

Tateando por caminhos escorregadiços que lhe davam respostas insatisfatórias a questões da realidade humana, precipitou-se na confusão, no erro e na dor. “Naquelas bandejas serviam-me então ficções brilhantes!”

“Chegado já aos trinta anos, continuava ainda preso ao lodo de gozar dos bens presentes que fugiam e me dissipavam”, confessou, sentindo o tempo passar sem alcançar o que ansiava.

Certo dia, porém, no jardim de sua residência em Milão, Agostinho pareceu ouvir alguém repetindo “Tolle et lege” (Toma e lê). Viu à sua frente um livro aberto e, ao ler a mensagem que lhe saltou aos olhos...

Caro leitor, não vou dar spoiler. Leia o livro. Talvez, ele esteja procurando por você. 

LIC

sexta-feira, 4 de julho de 2025

CASSANDRA


Valentina vivia um casamento infeliz de há muito tempo.

Naquele vigésimo quarto ano, decidiu não comemorar as Bodas de Prata. Deu um basta ao conselho da avó que, em última instância, chegou à sentença final. “Ruim com ele, pior sem ele”.

Por conseguinte, se submeteu a Freud, frequentou workshops xamânicos, se banhou em cachoeiras indígenas e tatuou uma palavra védica atrás da orelha. “Um bom lugar para escondê-la, para que nem meu esposo nem meu filho vejam”, Valentina se justificou com o terapeuta.  

Com uma herança de crendices incutidas pela mãe, que lhe repetia casos extraordinários, acreditava em tudo diante do mistério da vida, no inexplicável de tantos acontecimentos inimagináveis. “Há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia”, Valentina explicou ao terapeuta.

Ao fim e ao cabo, aceitou a sugestão da Cassandra, uma amiga de infância. “Procure a cartomancia. Madame Janette viu o nascimento do meu filho antes mesmo de eu saber que estava grávida. Ela é profissional da área há dez anos, tem clientes até nos Estados Unidos e no resto do mundo, e muitos são influencers famosos.”

Na tarde daquela fria sexta-feira de julho, Valentina foi consultá-la. Ao entrar no quarto rodeado de cortinas escuras cobrindo as janelas, ela procurava respostas que aliviassem a frustração presente e a ansiedade em saber o que a vida lhe reservava, mesmo temendo o desconhecido.

Madame Janette era uma mulher de cinquenta anos, nariz e sotaque eurasianos, olhos verdes-esmeraldas com uma aura de escuridão e astúcia. 

Convidou Valentina para sentar e sentou-se do lado oposto da sua mesa de trabalho posicionada no centro da sala, coberta por uma toalha vermelha com símbolos místicos, onde estavam expostos cristais, velas acesas, incensos de limpeza e proteção. Abriu uma gaveta e tirou um baralho.

Com o coração vibrando como uma britadeira, Valentina não desgrudava os olhos de Madame Janette, ansiosa pelo que viria.

A cartomante começou a baralhar as cartas, baralhou-as bem, dividiu-as em três maços que transpôs três vezes, combinou-os, começou a estender as cartas viradas para baixo em formato de leque e pediu que Valentina escolhesse uma. Repetiu três vezes esse ritual e Valentina escolheu uma carta a cada uma dessas três vezes. A sorte fora lançada.

“As cartas me dizem que você não precisa ter medo. Sua gravidez será gemelar de meninas.”

Como daí a Valentina chegou ou não às Bodas de Prata eu não soube nunca.

Perdi contato com a Cassandra quando fui trabalhar na sucursal de Roma em agosto.

LIC

segunda-feira, 30 de junho de 2025

"FAMÍLIA"

Naquele dia, o encontro aconteceu por acaso durante o passeio matinal na pracinha.

O cachorro de João Pedro avançou rosnando pra Lulu da Pomerânia da Maria Clara, tipo criança mostrando a língua para outra criança.

“Ermenegildoooo, quieto!” João Pedro, puxando a coleira com energia, se desculpou.

Maria Clara sorriu, pegou a Bebel no colo e a conversa começou.  

“Qual a raça dele?”

“É um fox paulistinha, um bom cão de guarda apesar do tamanho”, respondeu João Pedro.

“Tamanho não é documento, não é mesmo?”, Maria Clara gentilmente concluiu.

A conversa foi se estendendo para variáveis ditos e comentários, alguns até menos caninos, mas digeridos sem esforço. Enquanto isso, Bebel e Ermenegildo ensaiavam uma socialização olfativa.

A partir de então, Maria Clara e João Pedro começaram a se encontrar todos os dias naquele mesmo local e horário.

Pouco a pouco, Maria Clara foi sentindo que João Pedro era um marido aceitável e vice-versa. Concordes no amor soberano aos quadrúpedes, não desejavam transmitir a nenhuma criatura o legado da miséria humana. O Brás Cubas do Machado, que ambos também amavam, os aprovaria além-túmulo.

João Pedro beirava os 50. Maria Clara contava 32. O casamento não tardou acontecer – onze meses depois.

E a linha hereditária se fez por uma linhagem canina: Bebel pariu duas Lulus da Pomerânia. Ermenegildo fecundou diversas fox paulistinhas, mas as gestações não se concluíram, resultando em abortos por causas não identificadas.

O casal registrou em um cartório virtual a certidão de nascimento das crias que vingaram com nome e sobrenome.

Com acesso irrestrito aos aposentos do interior da casa, camas aconchegantes no quarto do casal, toneladas de brinquedos nas festinhas de aniversário, todos participavam da rotina familiar e das visitas dominicais aos "avós". O casal só se hospedava em hotéis que aceitassem pets e passaram a frequentar tão somente restaurantes inclusivos.

Até que... Nero chegou, um mestiço vira-lata com pastor alemão.

Nero tinha um histórico de rejeição. Não encontrava um lar nos eventos de adoção do abrigo que João Pedro seguia e apoiava.

João Pedro, desolado por Ermenegildo não ter lhe dado descendência, finalizou a adoção. "Nero", pensou ele, "é um vira-lata, têm genes provados e testados nas agruras da vida, será um bom reprodutor".

Mas... o que ele não sabia é que Nero tinha um perfil comportamental marcante, sequela das agruras da vida. Foram necessários seis meses de visitas ao médico acupunturista, com aplicações semanais de 40 agulhas, da cabeça ao rabo, para liberação de neurotransmissores que aliviassem suas tensões e as marcas profundas causadas pela síndrome do abandono.

João Pedro, mesmo assim, apostando numa possível descendência a partir de Nero, passou a lhe dar precedência de atendimento, tempo e lugar.

Os efeitos não se fizeram tardar. 

Maria Clara, sua "filha", as duas "netas" e também o "enteado" Ermenegildo, sentindo-se cada vez mais preteridos, pediram o divórcio. Chegou à Justiça com litígio e contrato sobre a guarda, os dias e horários de visitação dos "filhos" para garantir o direito de convivência com os "pais", um ano depois da chegada de Nero.

Não sei como foi a vida dessa "família" daí em diante, mas continuo engajada na causa humana.

LIC

sexta-feira, 27 de junho de 2025

GUIMARÃES ROSA

FAÇAMOS O HOMEM À NOSSA IMAGEM, CONFORME A NOSSA SEMELHANÇA.
Gênesis 1, 26

 

COMO NÃO TER DEUS?!

Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra.

É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar- é todos contra os acasos.

Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo.

João Guimarães Rosa, 27 de junho de 1908, Cordisburgo, Minas Gerais, Brasil

quinta-feira, 19 de junho de 2025

SANTO DE DEVOÇÃO

Felícia tinha conexão com aquela santa por motivos de parentesco. Uma antiga tradição de família afirmava que eram primas por uma linha transversal de terceiro grau.

Herdara esse legado religioso a que dedicava especial veneração e com quem tinha uma relação de cumplicidade, com boas doses de interesse pessoal.

Cumpria a prática contratual romana baseada no princípio do ut des, “dou para que dês”. Aproveitava assim, promiscuamente, a devoção e a irreligião, sem desacreditar do Criador.

Se faltava dinheiro na associação dos filhos de aidéticos que ela mantinha, Felícia entrava em contato com a prima. Sem mais nem menos, aparecia um doador!

Se estava no centro da cidade, às 18h de um dia chuvoso, lhe pedia um táxi. Em poucos minutos, um taxista estacionava aos seus pés desembarcando um passageiro.

Quando perdia os óculos, era para a prima que recorria, muito mais eficiente que São Longuinho. De pronto encontrava e nem precisava dar os três pulinhos. Pois a santa nunca lhe pediu nada como contrapartida nem lhe pedia paga antecipada. Afinal, ela não era qualquer parenta.

Mas, como fidedigna pagadora de promessas, Felícia sempre retribuía pelos obséquios. Cumpria mesmo que lhe custasse deixar de comer farofa, seu prato predileto, por um ano, ou peregrinar para um lugar santo a pé, ou se vestir com os trajes da santa na data da sua morte, dia de festa.

Era nessa comemoração que vinha lhe pedindo algo especial há anos, ainda que se sentisse naturalmente merecedora. “Prima, o matrimônio é minha alma e vocação, sei que nasci para isso.”  Mesmo assim, pela força do hábito, prometia. “Em sua homenagem, minha filha terá seu nome.”

A cada ano, pedia com mais ardor, pois Felícia estava se aproximando da meia-idade. “É melhor não prometer nada do que fazer uma promessa e não cumprir. Não deixe que as suas próprias palavras o façam pecar”, aprendera lendo a trajetória de santidade da prima. 

Nessa festividade separava um cantinho da sala onde morava com a mãe viúva para colocar a imagem da prima no oratório de madeira decorado com rosinhas de rococó.

Organizava um encontro com os sobrinhos para lhes contar fatos da vida da santa com a promessa de cachorro quente e do bolo de chocolate com cobertura de brigadeiro que todos amavam. Nesse contrato comutativo, o toma lá da cá era consentido sem-vergonha pelas partes envolvidas. Ninguém era santo.

Naquele dia daquele ano, estava mais feliz do que em todos os outros. Com mais gratidão do que nunca, celebraria a prima por lhe ter facilitado o que vinha pedindo ano após ano. Casaria no próximo mês.

Logo cedo saiu para comprar as flores que enfeitariam aquele espacinho da casa e os ingredientes para o bolo.

Mas como a vida tem suas encruzilhadas, Felícia se encontrou diante de uma da qual não teve tempo de escolher direção. Se tem uma coisa que a vida nos ensina é que nem tudo sai como planejamos.

Vinha andando, com a cabeça nas nuvens, revivendo o que vivera até então e antevendo o que poderia viver depois do casamento.

No Boletim de Ocorrência registraram atropelamento com morte súbita e omissão de socorro.

Foi enterrada vestida de noiva naquele mesmo dia do onomástico da prima santa.

LIC

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


terça-feira, 17 de junho de 2025

KAFKA


"Existem dois pecados capitais, dos quais todos os outros derivam: impaciência e indolência.
Por causa da impaciência os homens foram expulsos do paraíso, por causa da indolência eles não voltam."
Franz Kafka

terça-feira, 13 de maio de 2025

A PERA

 

Uma pera Willians. Por que será que lhe deram esse nome?

Vendi minha Delta-Larousse para o Sebo do Messias no mês passado, então... vou pesquisar por aí. Agora, tem Google, Bing, Yahoo! ... ChatGPT, polímatas virtuais.

Bem... voltando à pera Willians. Ela está na minha fruteira há duas semanas. Sua cor e consistência não mudaram desde então. Mexo nela e me parece que não madurou.

As peras têm formato de pera. São cônicas. Parecem um sino arredondado na metade inferior, com um pescoço grosso enfeitado com um cabinho, a extremidade do caule.

Esta, em questão, está verde, com um leve rubor em uma pequena parte da casca lisa. Dizem os pomológos que ela fica amarelo-dourado quando amadurece.

A Williams é uma variedade originária da Inglaterra. Seu nome completo é Williams' good Christian. Tem uma longa história por trás desse nome. Não vou contar. É perder tempo com o que não vai lhe acrescentar mais sabor.

Voltando a ela, observei que a parte inferior se “fecha” com o que restou da flor que lhe deu origem, uma cicatriz, seu umbigo. Foi cortado, está seco.

Comer uma pera todo dia tem benefícios, assim como também comer jaca (eca!), porque uma fruta não é superior à outra, como todas as criaturas deste Planeta, todas nascidas do mesmo jeito, criadas no mesmo canto. E Deus viu que isso era bom. 

Comprei no sábado antes do meu aniversário, há nove dias. O cabinho está enrugado. Talvez tenha envelhecido por dentro, esteja "passada".

Lembrei que tem gente assim, "passada" por dentro, parecendo novinha por fora à base de dor e desconforto  preenchimento com ácido hialurônico, laser fracionado, lifting facial, cirurgia plástica, peeling de fenol, microagulhamento, injeção de toxina botulínica, introdução de fios de sustentação, rinoplastia etc. etc. etc. 

Ainda vão inventar outras estratégias. Ninguém mais se conforma em envelhecer e ter que entregar o bilhete de volta!

Vou enfiar a faca nela. Se ficar na fruteira por mais tempo, vai afetar as outras. Elas se comunicam! Deixe-as lado a lado e você acelerará a maturação de todas. Mais um golpe de gênio do Criador!

LIC