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terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

COMER OU NÃO COMER?

Logo na primeira mordida, Maria Elisa engasgou.

A massa da esfirra “esticadinha” estava seca, quase carbonizada, e o recheio de zátar parecia areia do Saara. Zátar é pó granulado... de tomilho, orégano, manjerona, gergelim torrado, coentro, sumagre, sal e, por vezes, cominho e coentro. Não foi uma boa escolha, foi péssima.

No passado, quando almoçava no Farabbud aos domingos, Maria Elisa pedia, e comia com prazer, a “esticadinha” de carne. E se deliciava!

Mas ela decidiu ser vegetariana. Lera a descrição feita por Tolstói do matadouro da sua cidade de Tula e ficou horrorizada. Está lá, no ensaio “O primeiro degrau”, os detalhes do assassínio sem piedade de animais indefesos e de seu sofrimento, criados e transformados em hambúrguer e churrasco.

Chocada com a barbárie, não hesitava em afirmar que “qualquer pessoa de bom coração diante desse relato também deixaria de se alimentar do cadáver de animais”.

“Não podemos acreditar que, como avestruzes, se não vemos o que não queremos ver não existe. Os animais sofrem, mesmo que alguns produtores alardeiem abate humanitário para que sofram menos”, ela grifava. 

Para dar validade sagrada e milenária à opção vegetariana, ela citava um verso do primeiro capítulo de Gênesis. “Vede, eu vos entrego as ervas que dão semente sobre a face de toda a terra; e todas as árvores frutíferas que dão semente vos servirão de alimento.”

Como, então, a humanidade se atrevia a desobedecer às prescrições do Livro da Criação?!

Num instante, Maria Elisa se viu no meio de um fogo cruzado.

Era nítida, entre todos, a passionalidade em favor da necessidade humana de proteína animal e dos prazeres da carne para ser forte e feliz.

Não sem muita discussão, todos tinham algo a dizer na contramão do Criador, com opiniões abalizadas por médicos, nutricionistas, estrelas de Hollywood, influencers famosos, vídeos Tik Tok, o Google, a Wikipédia etc.

Para oficializar o fim da polêmica, Heitor bateu o martelo quando afirmou que a vida não seria normal nem valeria a pena estar vivo para comer um “churrasco” à base de abobrinha, milho, berinjela, brócolis, pimentão e couve-flor. Foi aprovado unanimemente com gargalhadas e aplausos entusiastas.

Chamaram o garçom e pediram mais uma porção de esfirras de carne, basturma com ovos, quibe assado, quibe cru, quibe frito, kafta.

Acuada, Maria Elisa se calou, quase acreditando que, talvez, Tolstói tivesse exagerado. Apesar de ser um luminar do universo literário, ele era dado a excessos.

Mas... e quanto ao Criador? Os ensinamentos doutrinários que recebera afirmavam que ele era onisciente.

Decidindo que não era hora nem lugar para se ocupar seriamente desse tema sem dominar os fundamentos necessários, Maria Elisa chamou o garçom e pediu a sobremesa. 

Ao chegar em casa, procurando a Bíblia para ler novamente o Gênesis, deu de cara com o livro “Flor de Obsessão: as 100 melhores frases de Nelson Rodrigues”. Uma delas veio de imediato à sua mente. “Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.”

Foi dormir conciliada com o Criador e com Tolstói.

LIC







segunda-feira, 3 de junho de 2024

O UMBIGO

Da minha infância, tenho poucas lembranças.

Uma boneca que andava sozinha - a Andinha - presente de Natal da minha avó Ignes.

Eram os anos 1960 e o Papai Noel já não passava mais lá em casa. Então, a vovó assumiu seu lugar.

Pois é dessa avó que lembro um fato engraçado. Ela vivia contando casos.

Foi numa tarde de sol. Estávamos no quintal, fazendo nada, só tomando sol.

Vovó começou a contar uma história que disse ser verdadeira.

"Eu não nasci como todo mundo. Não tenho umbigo."

Como Tomé, eu quis ver pra crer.

"Deixa eu ver, vó!"

Ela não deixava e sorria.

Eu passei alguns dias me perguntando como era possível aquilo, não ter umbigo?! Então, como ela tinha nascido?!

De tanto insistir, ela resolveu provar que era verdade. Eu vi e acreditei: no lugar do umbigo, tinha apenas um remendo mal feito.

Como eu sabia que meus irmãos tinham umbigo, meus pais tinham umbigo, eu tinha umbigo, a conclusão foi que minha avó nascera num outro planeta.

Passaram-se anos e o mistério foi desvendado quando eu tive uma hérnia umbilical.

Hoje, eu tenho uma cicatriz mal feita igual a dela no lugar do meu umbigo, essa cicatriz perfeita que todos os nascidos neste Planeta têm.

E que, não sendo um órgão, serve apenas para me lembrar que um dia minha dimensão corporal esteve visceralmente ligada a um outro ser, numa conexão e relação total de dependência. Eu não criei a mim mesma.

Lembrei de Adão e Eva. Com certeza, eles também tinham umbigo.

LIC