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terça-feira, 5 de agosto de 2014

No fundo do poço

   É um círculo vicioso.
   Quanto menos se reza, menos vontade se tem de rezar. Quanto menos vontade de rezar, menos se reza. Quando menos se reza, Deus começa a afastar-se. Não é que Deus se afaste, mas a sensação perceptiva que temos é que Deus é “menos” Deus em mim, como que se tornou alguém distante, quase inexistente.
   À medida que isto ocorre, há menos vontade de estar com ele. Quanto menos estamos com Deus, Ele mesmo é menos presença em mim.
   E aqui e agora surge o seguinte fenômeno: à medida que Deus é “menos” Deus, eu sou mais “eu” em mim, para mim, aumentando o amor-próprio, ou seja, tornam-se mais presentes em mim os aspectos negativos do “homem velho”, os mil filhos do “eu” – vaidade, busca de si mesmo, ressentimentos, lacunas afetivas, rivalidades, tristezas, manias de grandeza, necessidade de autocompaixão, de mendigar consolo... - Ignacio Larrañaga, Transfiguração 2012, pp. 28-29.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Apropriar-se

   Qualquer um de nós pode sentir o desejo de possuir algo, de torná-lo “meu”, “para mim”. Esse algo pode ser uma ideia, uma pessoa, um êxito, um cargo, um projeto, um nome, a imagem de mim mesmo... Torno-os “meus” na medida que os utilizo para minha própria satisfação ou proveito.
   E, assim, podemos estender uma ponte de energias adesivas, enlaçando minha pessoa com esse algo; a este enlaçamento, a este “torná-lo meu”, chamamos  apropriação. O pior que pode acontecer é que esse algo seja “eu mesmo”: nesse caso, eu me transformo em proprietário de mim mesmo. [...]
   Quando o “proprietário”, ligado emocional e possessivamente a algo, pressente que sua apropriação está ameaçada ou há o risco de perdê-la, emite uma descarga de energia emocional em defesa das propriedades ameaçadas; é o medo que, rapidamente, pode tomar, de acordo com o caso, a forma de sobressalto, ansiedade, agressividade. - Ignacio Larrañaga, Transfiguração 2012, pp. 49-50.