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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

COM UM PODER DIVINO

  

Me perguntaram qual era o segredo.

“Segredo?”, me perguntei. Sem mistérios.

Escancarei meu coração e fui dando o que tinha de melhor assim que chegavam por aqui. "Ama teu próximo como a ti mesmo.” É possível mais. Amei-os mais do que a mim e ao Pai.

Eram frágeis, indefesos. Eu tinha poder. Podia matá-los com minha indiferença. Em situação alguma, cargo, função tive, tenho ou terei tanto poder. Abracei o poder, pois era divino. E me foi dado porque necessário: precisava enfrentar inimigos.

Queriam que se calassem, que não chorassem. Tentei, mas não fechei a porta. Abri o peito, dispus o tempo a entender a linguagem da carência, do afeto, do aconchego, do carinho, do amor.

Hoje, eles não querem chorar. E fecham as portas. Os motivos? São os mesmos.

Queriam que não brincassem. Guardei os vasos de cristal, enrolei os tapetes, sentei no chão, perna de Buda. Escravos de Jó, passa anel, telefone sem fio, em um espaço sem limites.

Hoje, já não brincam. Foram arrebatados pelo mundo. Tudo está no seu preciso lugar e o tapete não voa mais.

LIC, s/d

Para Ricardo, Patricia, Rafael, Marcella



segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Salvem as crianças!

Quando a condição humana se transforma em condição médica
A medicalização na infância, em grande parte, fruto da banalização do diagnóstico médico dos distúrbios de comportamento, promove uma questão: por que, na sociedade contemporânea, não há mais tempo nem lugar para ser criança?

 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Meu ideal seria escrever...


Meu ideal seria escrever uma carta para meu filho.

Em uma folha de papel branco, tão alvo como a primeira luz do dia, para que as palavras ali resplandecessem como a estrela da manhã.

Enviaria pelos Correios, envelopada, a ser entregue pelas mãos de um carteiro.

Seria tão somente uma carta assim endereçada:

Para meu filho, com  carinho. 
De sua mãe

Desse modo, eu poderia lhe falar, sem a timidez a que o afeto me constrange, sobre a dor do que passou.

E lhe pediria perdão pelo garoto travesso que você não foi, pela pipa que deixamos de empinar, pelas bolinhas de gude guardadas na gaveta à espera de um chão de terra.

Pelas poucas gargalhadas que demos, pelas histórias que não contei e por não ter escutado seus sonhos.

Lhe pediria também compreensão por meus desacertos, pois eu estava aprendendo – a partilhar meu tempo, meus pensamentos, meu querer. Estava aprendendo a amar. 

Hoje, nos separamos. É preciso, é da vida. Mas ainda há tempo.

De subirmos no galho mais alto de uma velha árvore para, de lá, admirar o mundo, com o olhar confiante de um menino.

E recomeçarmos nossa história, descuidados, comendo escondidos toda a sobremesa do jantar, esperando de mãos dadas pelo ataque dos índios.

LIC, jan. 1998