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quinta-feira, 23 de maio de 2024

A BROA DE FUBÁ


O psicanalista Rubem Alves foi entrevistado pelo diretor de teatro Antônio Abujamra no programa "Provocações" em 3 de maio de 2011.

A uma das provocações que o Abujamra lhe fez - "a vida é uma causa perdida?" -, o Rubem respondeu, entre outras coisas, afirmando que a vida está cheia de algo maravilhoso que se chama alegria.

Citou, então, uma frase de Guimarães Rosa: “Alegria só em raros momentos de distração".

E não é que o Guimarães tem razão?! Pois eu estava distraída quando senti alegria naquele dia.

Era uma tarde fria e chuvosa. Sentei pra tomar um chá e comer a broa de fubá que acabara de comprar na padaria.

Se algum dia o manjar dos deuses do Olimpo existiu - a ambrosia -, seu sabor divino estava naquela prosaica broa de fubá.

A sensação de prazer foi intensa logo na primeira bocada. A alegria veio na sequência, como um produto interno bruto, original, de raiz!

Comi o restante da broa vorazmente pra sentir mais alegria, mas ela se fora.

Pois ela - a alegria - vem em pequenos bocados, em curtos momentos, tão repentina e fugazmente como um relâmpago.

É uma regalia da alma humana. Nem os anjos, tão próximos de Deus, a suprema alegria, conseguem senti-la.

Eles são imortais e a alegria se dá no tempo - no presente, num instante, sem programação.

E pode ter o "preço" de uma broa de fubá.

LIC, 23 maio 2024

quinta-feira, 16 de maio de 2024

NÃO MATARÁS.

Passei semanas e semanas me torturando com o desejo de matar a rainha.

Se eu quisesse acabar de vez com todas, teria que matá-la, pois era ela que comandava a colônia e ditava as ordens.

Era um "inferno" toda manhã. Bastava acender a luz para encontrá-las. Uma atrás da outra e outra e outras.

Eram do tamanho do coco de uma mosca, diria Emília, a marquesa de Rabicó. Um cocozinho que se movia rapidinho de lá pra cá, de cá pra lá, incessantemente, comandadas pelas ordens telepáticas da rainha.

Coitadas... todas iguaizinhas, todas operárias, todas atarefadas à procura de comida, comida, comida.

Esse sentimento de dó é que me impedia de esmagar todas com uma dedada assim que eu chegava na cozinha.

Ao invés disso, tentando ser ecologicamente correta, pegava um guardanapo e fazia com que subissem nele. Depois, "despachava" todas pela janela afora, junto com o guardanapo.

Mas elas não se contentaram em explorar a cozinha. Um dia, eu as encontrei na sala, depois, no escritório e a gota d'água foi quando resolveram invadir meu quarto.

Eu sei que foi culpa minha... Na noite anterior, tinha comido a sobremesa 🍨 na cama enquanto assistia um filme.

A distância da cozinha pro meu quarto é considerável, mas se alguém não sabe, elas conseguem se locomover por distâncias grandes, inclusive circular de um bairro para outro e..., pasmem, não dormem, melhor dizendo, só entram num estado de letargia.

Endureci o coração e resolvi comprar o veneno mais venenoso possível pra matar todas.

Fui pesquisar na internet qual seria quando chegou uma mensagem pelo WhatsApp.

Era o post de um amigo brasileiro que mora num desses muitos países em guerra ainda hoje.

Com uma imagem mostrando o horror de um cenário de guerra, a frase era do Guimarães Rosa: "Um dia ainda entra em desuso matar gente”.

"E matar formiga?", pensei imediatamente.

Ainda estou em dúvida.

LIC, 15 maio 2024