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sábado, 27 de fevereiro de 2016

Confesso que vivi!

Sandra Maciel (1946-2014), fundadora da Associação de Deficientes Visuais e Amigos (Adeva)
   Foi-lhe apontado um destino e, para cumpri-lo, ganhou uma personalidade vigorosa em um  corpo franzino. Um corpo escorado por ossos de vidro, quebradiços a um simples encontro, e guiado por olhos baços, quase cegos para o mundo visível.
   Assim, gozou o presente e vislumbrou um futuro sem se conformar às limitações que a Providência lhe impôs. “Carrega teu fardo como uma bandeira”, lhe sussurrou um anjo.
   E assim ela fez. Acreditou no respeito às diferenças, lutou contra o preconceito e a favor da igualdade.
   Como toda personalidade humana, tinha carências e fraquezas. Não nasceu para ser política ou diplomata. Não tinha o cuidado de se sair bem ou mal, nem movia um dedo para agradar quem quer que fosse.
   Dizia o que acreditava ser preciso, sem concessões e atenuantes, muitas vezes de forma abrupta, intempestiva, sobretudo quando a questão era ou envolvesse justiça e fraternidade.
   Há 37 anos, concluiu sua sina. Com um grupo de amigos, criou a ADEVA. De todos que aceitaram seu convite, alguns permaneceram por muito tempo, outros por um bom tempo, alguns, apenas um tempo.
   Mas ela permanecia, infatigável, trezentos e sessenta e cinco dias por ano, vinte e quatro horas por dia, sobre uma cadeira de rodas, com dois telefones à mão e uma cabeça fervilhando de ideias, projetos, soluções, alternativas, além de pais, filhos, irmãos, amigos (muitos amigos) por cuidar.
   Sempre disposta a recomeçar, com persistência, esperança e uma contagiante alegria revelada em altissonantes gargalhadas.
   No dia 27 de fevereiro de 2014, Sandra Maciel ultimou suas pendências com o Pai e se foi. Dizem que “desta para melhor”.
   Deixou saudade.