Naquele
dia, logo muito cedo para mim que estava no Brasil, minha filha me telefonou da
Itália para contar o que fizera naquele primeiro mês do seu ano sabático.
Nossa
conversa durou pouquíssimos minutos porque o telefone do seu quarto tocou. O
guia que ela contratara para uma excursão a Nápoles estava à espera no saguão
do hotel.
“Bom,
acho que vou indo, mãe. Tchau.”
Depois
de tanto tempo distantes, eu esperava uma longa conversa repleta de detalhes. Essa
despedida abrupta foi a deixa para eu dizer à Júlia o que eu disse, e de pronto.
Me
sentindo atropelada e preterida pela insignificância de um passeio em Nápoles, o
sabor amargo do ciúme fez meu ego se dilatar, autenticado por uma atitude
insegura, confesso, de mãe.
Sim,
sua filha está crescendo e se afastando – escutei alguém
“lá dentro” me dizendo assim que deliguei o telefone.
Abespinhada,
fui caminhar. Dizem que caminhar tem efeito calmante, ajuda a processar
pensamentos, clareia os bastidores da mente.
Trinta
e cinco minutos foram suficientes para suar e me arrepender. Não, não de
caminhar. De ter dito o que eu disse no calor da hora. Não no calor da caminhada, mas no
calor do momento da despedida.
Chegando
em casa, peguei o celular com a intenção de chamá-la para me explicar. Não
atendeu.
Mais
uma vez, naquele dia, meu ego se aprumou irritado. Tornei a validá-lo.
“Deixa
estar, um dia ela vai me dar razão.”
Procurando
esquecer o incidente, toquei o restante do dia como de costume, guardando nos
porões do inconsciente o incidente daquela manhã.
A
noite chegou e deixou sua marca, um pesadelo vívido e perturbador.
Júlia
caminhava sozinha por uma cidade pichada em meio a um trânsito caótico. Carros circulavam
alucinadamente por vias estreitas de mão dupla. Num beco sem saída, uma rua
deserta apenas iluminada pelo letreiro de néon de uma danceteria que piscava interruptamente
se destacava uma palavra em vermelho: “Napoli”. Um vulto sombrio envolto numa
capa negra guardava a entrada. Júlia correu para lá, encharcada da chuva que
começara repentinamente. Relâmpagos, trovões, um vento intenso, fez que ela se abrigasse
sob o toldo daquele lugar. Ao mesmo tempo, olhando para todos os lados, procurava
por táxi, se amaldiçoando porque esquecera o guarda-chuva que a mãe recomendara
que levasse ao sair de casa naquele dia.
Acordei
assustada, saltei da cama rapidamente.
Foi
apenas um sonho – disse a mim mesma. Mas as emoções que eu estava sentindo eram
reais e válidas.
Pratiquei
algumas respirações lentas e profundas para acalmar meu sistema nervoso e
telefonei para o hotel. O despertador sobre o criado-mudo marcava quatro da
madrugada.
Lá
é nove horas – calculei.
– Que aconteceu,
mãe?
Contei
meu sonho e só. Os bastidores ficam entre nós, queridos leitores.
Gargalhando,
ela me garantiu que o passeio a Nápoles fora sem incidentes.
–
Deixe de se preocupar comigo, eu estou bem. Que imaginação, hein, mãe?! Por que
você não começa a escrever?
E,
de novo, com pressa porque estava saindo para Sorrento, se despediu abruptamente.
Aceitei a sugestão. Esta é a
primeira das crônicas com que ocupei minhas preocupações nesse ano sabático da
Júlia.
LIC